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Um cachoeirense reencontra sua família.

Entretanto, se Leonardo vivia como que atirado para um canto, a sobres as conseqüências da moléstia que o inutilizara pra o trabalho, sem encontrar uma alma caridosa que o auxiliasse, não quer dizer que ele fosse um sem família: parentes tinha-os, e muitos, sendo alguns ricos, os quais, como quase sempre acontece, pareciam ignorar a sua existência. Preocupava-o ainda, a lembrança de um irmão mais moço e que não sabia por onde andava. Leonardo bem se lembrava do dia em que Pedro partira para não mais voltar: foi por ocasião das primeiras altas do café, quando todos os ambiciosos punham as suas mais risonhas esperanças na famosa rubiácea, que ele se fora pra o Noroeste de São Paulo e desde então não dera mais sinal de vida. Algumas cartas lhe escrevera Leonardo mas, como não obtivesse nenhuma resposta, recolheu-se ao silêncio, talvez julgando o irmão já não existisse. E a recordação deste irmão constituía mais uma nova dor, adicionada às muitas outras que o atribulavam.

8 de dezembro. O dia despontara formoso, por entre os cânticos dos pássaros, que saltitavam alegremente nos galhos das árvores, cujas folhas verdes, umedecidas do orvalho da noite, rebrilhavam aos raios de ouro do astro-rei. Nem sequer uma nuvenzinha manchava a pureza do firmamento tão azul, como o mesmo manto da Imaculada Conceição. Ao meio-dia o calor era sufocante e lá ao longe, no horizonte, aparecia uma barra escura que vinha subindo lentamente, cada vez maior, cada vez mais densa, anunciando a tempestade, que em breve desabaria sobre a terra. Pela vastidão dos campos verdes, ensombrados de grandes árvores que aqui e ali erguiam para o céu os seus galhos folhudos, ouvia-se o fretinir estridente e contínuo das cigarras.

Em frente à casa de Leonardo, aproveitando-se da estiada, brincavam quatro crianças, em cujas faces pálidas adivinhava-se a deficiência da alimentação que recebiam; perto da porta, assentado em seu baquinho predileto, estava Leonardo e, junto dele, Josefa, a incansável esposa e mãe, a alma heróica da casa, a criatura que lutava do dealbar ao anoitecer, para que ao marido e aos filhos não lhes faltasse pelo menos o indispensável e para que não morressem à míngua. Sorria, carinhosamente, às criança e animava, com as suas palavras ungidas de fé e de esperança, aquelas a quem consagrara a vida, a quem, junto do altar, jurara amor e fidelidade. De repente, ouviu-se o ruído surdo de motor que a mais e mais se aproximava e, instante depois, um automóvel, cortando pelo meio do campo, aos solavancos, parava perto da casa. Para Leonardo e Josefa, o momento era de expectativa. Quem seria o dono daquele carro e o que iria procurar naquela casinha até então visitada quase que apenas pela miséria e pela dor? As crianças já não brincavam e devagarinho se foram esgueirando para o interior da casa e Leonardo e Josefa aguardavam, curiosos porém tranqüilos, a aproximação do homem que descera do carro e rapidamente se dirigia pra onde eles se encontrava.

Bem trajado, forte, aparentando ter de idade pouco mais de um quarenta anos, o recém-chegado procurava ocultar uma grande comoção de que, apesar de seus esforços, deixava transparecer inequívocos sinais: Era Pedro que, depois de enriquecer-se no comércio de café, aparecia inopinadamente ao irmão, mas como um enviado de Deus, que dele se servia para levar ao crente que sofrera por muitos anos sem que sentisse desfalecer a sua fé no Criador, a primeira recompensa, que ele bem merecia.

Poucos dias depois Leonardo e sua família instalavam-se em uma boa casa na cidade e onde nada lhes faltava porque Pedro, para fazê-los esquecer os passados de sofrimentos, fazia questão de cercá-los de carinho e de conforto.

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Gaveta Velha.

Próximo trecho: Um Natal em Carmo da Cachoeira.
Trecho anterior: A Bem-aventurança dos que choram.

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