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A festa de São Sebastião em Carmo da Cachoeira.


A festa de São Sebastião era e é1 uma das mais mais concorridas e a que maior renda produz para a igreja, porque o povo concorre com dinheiro e brindes e quase todos os fazendeiros que possuem gado reservam o seu bezerro ou garrote para o leilão. É que o Santo Mártir é considerado o protetor da criação e os criadores, muito naturalmente, querem estar nas boas graças do bravo santo.

Nem mesmo as chuvas torrenciais de outrora impediam os fazendeiros de se transportarem para o arraial, nas vésperas da festa de S. Sebastião. Vinham a cavalo e chegavam quase sempre encharcados pela chuva, acompanhados de toda a sua família. Mais tarde vinham chegando os carros de bois que traziam, através das estradas lamacentas, tudo aquilo de que necessitavam: colchões, malas de roupas, sacos de mantimentos, frangos, lenha, etc., etc.

As ruas por onde deveria passar a procissão eram enfeitadas com arcos de bambu, onde esvoaçavam bandeiras ou correntes de papel de seda de várias cores. Ao lado da igreja construía-se um coreto improvisado, com a parte inferior fechada e onde se prendiam os leitões e as aves destinadas ao leilão; em cima, colocavam-se os brindes e havia lugar reservado para a banda de música, o leiloeiro e o secretário. Terminada a missa solene, iniciava-se o leilão. O leiloeiro, o Licas, dava começo às suas funções, com o clássico convite:

"Vamos ver rapaziada. Vamos chegando, que a coisa aqui hoje está boa de verdade".

E o povo chegando mesmo, não só porque desejasse arrematar alguma coisa, mas também porque o Licas, com as suas brincadeiras e a sua gaitinha, sabia arrancar risadas aos presentes. Sim. Espírito alegre e brincalhão, Olímpio Virgulino de Souza, o Licas, era a alegria de todas as reuniões ou festas a que comparecia. Últimamente andava muito doente e veio a falecer inesperadamente, no dia 26 de outubro de 1955, em casa de seu sobrinho José Glicério Chagas, onde se achava a passeio.

Licas morreu. Mas a sua lembrança ficará guardada no coração dos cachoeirenses que o conheceram, que o estimavam e o admiravam, pela sua bondade e pelo seu constante bom humor.

Termiando o leilão de prendas ou interrompido por falta de tempo, o licas convidava o povo para o leilão de gado e lá ia a bana de música, acompanhada pelos interessados em arrematar garrotes, para o curral onde se encontrava o gado de São Sebstião.

Pela tarde, se as chuvas o permitissem, realizava-se a procissão acompanhada por grande número de pessoas,até a sua volta a igreja, onde a festa era encerrada com o clássico sermão e bênção solende de SS. Sacramento.

Tudo encerrado, começaca a debandada. Ia-se o pregador, ia-se a banda de música. Os fazendeiros com suas famílias regressavam para as fazendas e o arraial oubia novamente o canto dos carros de bois que voltavam para as roças, pelas mesmas estradas cobertas de lama.


Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Carmo da Cachoeira: Origem e Desenvolvimento.

Próxima matéria: Semana Santa, folguedos e fé em Minas Gerais.
Matéria Anterior: As antigas festas religiosas de Carmo da Cachoeira.

1. o texto foi publicado originalmente em 1975.

Comentários

Anônimo disse…
"Seu Licas", citado pelo professor Wanderley, é o senhor Olímpio Virgolino de Souza, casado na Família Gouvêa. Olímpio Virgolino de Souza é homenageado em Carmo da Cachoeira, Minas Gerais, com a denominação de uma rua em seu nome. É uma travessa da Rua Domingos Ribeiro de Rezende e Dr. Veiga Lima, no Centro da cidade.

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