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Mulheres negras e brancas raptadas em Minas.

O aliciamento de negros para compor a estrutura populacional destes quilombos é interessante para a percepção de como funcionava o próprio sistema escravista em Minas Gerais. Quando a tipologia de classificação de quilombos foi proposta para o Rio de Janeiro durante o século XIX, percebeu-se que praticamente não havia casos de raptos de mulheres ou mesmo de homens para participarem dos quilombos.

Isto sugeria que, de uma forma ou de outra, os quilombolas conseguiam manter os níveis de natalidade em termos razoáveis, obtendo assim, uma boa taxa demográfica no interior dos quilombos; ou ainda, que não seria interessante para os quilombolas do Rio de Janeiro aumentar sua população via seqüestros e desencadear a ira dos senhores. Entretanto, em Minas Gerais, o que se vê é um quadro completamente diferente. É constante na documentação a afirmativa de que os escravos seduziam ou raptavam mulheres negras ou mesmo brancas para seus quilombos. Este dado permite pensarmos em vários elementos.

1.
Ao analisar as listas demográficas dos escravos de Minas Gerais, fica explicado, pelo menos em parte, a falta de mulheres nos quilombos mineiros. Estes censos demonstram em qualquer período, a grande diferença entre homens e mulheres escravos. Este desequilíbrio refletia-se também nos quilombos. A necessidade do rapto de mulheres escravas também poderia significar que a vida no quilombo não era interessante para todos os escravos e que as mulheres, por algum motivo, evitavam fugir para estas estruturas.

Conforme visto anteriormente, havia mulheres que iam para o quilombo como uma opção de vida e havia as que iam seqüestradas. Destas últimas, algumas iam à força e outras pacificamente. Em 1756, uma patente de Capitão do Mato foi justificada pelo fato de que “... por falta de capitães do mato se achavam a maior parte dos negros da dita comarca fugidos, por não haver quem os amarrasse, perturbando os ditos negros a república com roubos de gados e outros gêneros, andando apanhando negras para os quilombos...”1

2.
O rapto de mulheres brancas poderia indicar uma forma de afronta à sociedade colonial, na medida em que tocava no ponto chave daquela sociedade machista: a honra de suas mulheres.

Em 1737, Tomé Rodrigues Nogueira de Oliveira, escreveu uma carta para Gomes Freire de Andrade relatando o ataque que fizeram a um quilombo onde estavam duas moças e o irmão menor. A carta informa que durante o ataque ao quilombo, apenas conseguiram matar um dos quilombolas e que os demais fugiram deixando as moças e a criança no rancho. Deixando-os em segurança, a expedição seguiu ao encalço dos quilombolas, conseguindo prender “...as negras e crianças, um negro e um bastardo, que mandei entregar à Justiça por me dizerem as ditas moças era o que matara a seu pai...”2

O quilombola morto teve sua cabeça exposta “... na encruzilhada onde fazião os maiores insultos...”3

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

Próximo Texto: As táticas de terrorismo utilizadas pelos quilombolas.
Texto Anterior: A liderança, a hierarquia e a estrutura dos quilombos.

1. APM SC Cod 114. Fls. 28v-29
2. APM SC 56 P COD, p. 102v
3. ibidem

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