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Uma carta apaixonada.

O Padre José Falci que foi vigário de Campestre e tinha fama de namorador, se deu mal ao enviar uma cara à sua pretendente através do marido da mesma, um cidadão de nome Raphael Dama que, após conhecer o conteúdo da carta - a qual devia ser queimada, segundo o desejo do autor - a fez registrar no cartório de notas da localidade, passando, destarte, para a posteridade esse invulgar acontecimento. Eis o curioso teor daquela missiva:

"Ilmª. Srª Dona Xiquinha (sic). Querida e sempre Estimada Senhora. Como não posso falar-lhe a viva voz, dirijo-lhe a presente por meio do seu marido. Não entendo revolver o passado o que cobria um véu, porém, devo-lhe asseverar perante Deus, que me deve julgar em ponto de morte, que quando pratiquei minhas impertinências, no dia 18 deste corrente mês, foi para fazer vingança com duas pessoas que em outras circunstâncias ofenderam altamente meu melindro e ao mesmo tempo afastar V. Sª. e seus parentes de um precipício de vergonha perante o público que já começava a falar. Parece-me que com isto lhe fiz um grande bem e não um mal. Ah! Virá um dia quano V. Sª. entrará completamente na tranqüilidade de espírito, que a senhora, refletindo desapaixonadamente sobre o caso, afastará de seu coração esse ódio mortal que tem de mim. Porém, eu lhe pago seu ódio com amor, seu mal com o bem - que V. Sª vá se embora desta terra, quer aqui more. Oh! Quem me dera pudesse fazê-la tornar uma Rainha, gastando para isso o pouco que possuo. Para que a senhora não pense que estou escrevendo prosas à toa, ofereço-lhe, como presente, e com o melhor gosto do mundo, um dos meus cavalos; àsorte que vai-se embora montará um cavalo que pode dizer ser seu; e se morar nesta terra, lhe servirá para passear, podendo vender ou fazer o que aprouver dele; bastado para mim o gosto de vê-la satisfeita e bela. Medita, senhora, sobre os fatos e traquilize-se. Rogo-lhe queimar a presente. Saúdo-a de coração. Sou co o maior respeito de V. Sª. o bom criado . P. José Falci. Campestre, 21 de Janeiro de 1878" 1.

Oportunas ao término deste item são as palavras de Saint-Hilaire, sobre o clero em Minas Gerais, em 1822:

"Quanto ao mais, se os sacerdotes estão longe de serem isentos de defeitos, devemos reconhecer com prazer que não têm o da hipocrisia: mostram-se tais quais o são, e não procuram passar pelo que não são, usando solenes discursos e atitudes austeras"1.

1. A. de Saint-Hilaire, Viagem pelas Provínidas do Rio de Janeiro e Minas Gerais, p. 87.

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