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O cotidiano e as festas na antiga Carmo da Cachoeira.


A vida dos habitantes do arraial de Carmo da Cachoeira, como a de outros lugarejos semelhantes, era a mais rotineira possível: não havia cinema, clubes, rádio, televisão, nada, enfim, que ajudasse a matar o tempo nos momentos de folga. De tempos em tempos aparecia algum circo de touradas ou de cavalinhos, ou um teatrinho de fantoches a que o povo dava o nome de "briguelos" e era um sucesso. Durante muito tempo servia de assunto a um povo que não dispunha de outra maneira de distração.

Se os velhos de há cinqüenta anos passados pudessem voltar aqui, como haveriam de ficar adminirados com a transformação havida em tão poucos anos!

Eu imagino que, se meu avô, ou outro avô qualquer, falecido há muitos anos aqui chegasse nos dias atuais e encontrasse a cidade iluminada pela uz elétrica, visse os aviões cruzando os céus de sua terra, o cinema faldao, o rádio a televisão, etc., tamanho seria o seu espanto, que não teria dúvida em julgar que por aqui havia passado alguma fada saída das páginas das Mil e Uma Noites. Chego mesmo a pensar que ele não se acostumaria a viver em um mundo assim, tão diferente daquele do seu tempo.

Não neguemos razão ao velho que assim pensasse, por que no seu tempo a vida se passava naquela monotonia, naquela quietude, apenas quebrada de longe em longe por alguma festa de igreja, que atraía ao arraial os habitantes da zona rural. Então, as ruas eram capinadas e os buracos aterrados; as casas dos fazendeiros, comumente fechadas, abriam-se, emprestando um ar mais alegre à praça e às ruas; a criançada, em bandos alegre e buliçosos formava grupos à porta da igreja ou percorria as ruas num vai e vem sem descanso, em busca de novidades; a banda de música, quase sempre vinda de Três Corações ou Nepomuceno, chamava a atenção do povo e a igreja se tornava pequena para conter a multidão de fiéis que a ela acorria, para assistir aos atos religiosos.

Mas, terminada a festa, as casas dos fazendeiros se fechavam, o mato invadia novamente as ruas e a praça, o comércio se paralizava, as chuvas se encarregavam de reabrir a furaqueira e o arraial voltava à mesma vida vegetativa de antes.

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Carmo da Cachoeira: Origem e Desenvolvimento.

Próxima matéria: A chegada do cometa animava o povo dos vilarejos.
Matéria Anterior: Relação dos prefeitos de Carmo da Cachoeira.

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