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A primeira escola: aulas na cadeia e palmatória.


Entre as coisas do passado de Carmo da Cachoeira, uma houve que nos deixou as mais gratas recordações: A Escola Pública.

Não sei a data exata em que foi criada a primeira escola do arraial, nem qual o Governo que a criou, mas deve ter sido lá por 1877 ou 1878. De acordo com alguns dados que conseguimos, a escola funcionava em uma casa construída pelos Rattes e estava localizada um pouco para cima do local onde se acha agora o Matadouro Municipal1. O primeiro professor foi conseguido em Congonhas do Campo pelo Capitão Antônio Naves e chamava-se Francisco de Paula Cândido. Na primeira noite passada no arraial, por falta de cama, dormiu no chão; construiu depois uma tarimba, colocou nela um colchão feito de sacos cheios de capim, onde passou a dormir.

Nos princípios de 1903 começou a funcionar a Escola Pública Feminina, regida pela Profª. d. Ana Evangelina Ximenes e, mais ou menos na mesma data, iniciava-se a Escola Pública Masculina, que teve como professor o Sr. Pedro Juvêncio de Souza. Em 1930 estas Escolas foram transformadas em Escolas Reunidas, com três classes e 17 anos depois, em 1947, foi criado o Grupo Escolar "Monsenhor Nardi" [1948], que anos mais tarde teve a sua denominação mudada para Grupo Escolar "Pedro Mestre", numa justa e merecida homenagem ao Professor Pedro Juvêcio de Souza.

Pelas carteiras da escola do Sr. Pedro Mestre passaram várias gerações de cachoeirenses, muitos dos quais ocupam hoje lugar de destaque na administração pública, no magistério e na sociedade; outros muitos, que não puderam continuar seus estudos, devem a instrução que possuem àquela modesta escola, que por muitos anos funcionou numa sala de cadeia pública.

Eu me recordo com saudade daquela sala, onde entrei pela primeira vez em 1912, contando sete anos de idade. As carteiras em filas; a mesa grande, atrás da qual se assentava o Professor e, sobre ela, papéis, livros, tinteiros, réguas e a indispensável palmatória, com os clássicos cinco buracos no centro. Próximo a um dos cantos da sala, o grande mapa colorido, onde começamos a conhecer as cidades do Brasil. uma sala menor era uma espécie de gabinete do Professor e a ela eram chamados com frequência os alunos mais insubordinados, para o acerto de contas e o doloroso contato com a palmatória.

Pedro Mestre era dotado de um espírito humorístico que não o abandonava nem mesmo nos momentos de castigar algum rebelde; após fazer o uso da régua ou da palmatória, enquanto a vítima assoprava as mãos ao berros, ele se ficava a olhá-la de maneira tão irônica, que despertava o riso aos outros alunos.

De vez em quando aparecia o Inspetor Escolar, que no meu tempo era o Zequinha Sant'Ana. Palestrava com o Professor, fazia algumas perguntas aos alunos e lá se ia, rua acima, bengalinha atrás das costas, com aquele seu jeitinho todo brando, todo bondoso.

No fim do ano, terminados os exames, Pedro Mestre oferecia farta mesa de doces e quitandas aos alunos. Saiamos da Escola, formados dois a dois, bandeira nacional à frente, e íamos para a casa do Professor. D. Quita já havia preparado a mesa e os mais gulosos e menos educados7 avançavam para ela e, não só comiam a fartar, mas ainda enchiam os bolsos. A nossa turma ficava de lado, assistindo à destruição. Terminada esta, Sr. Pedro punha a molecada para fora e mandava preparar outra mesa pra nós.

E era assim que terminava o ano letivo na Escola Pública de Carmo da Cachoeira.

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Carmo da Cachoeira: Origem e Desenvolvimento.

Próxima matéria: As duas fazes do antigo Colégio Cachoeirense.
Matéria Anterior: As visitas pastorais, a banda, o menino e o médico.

1. Este texto foi publicado originalmente em 1975.

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