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Os ataques aos brancos e os quilombos fortificados.


Em 1746 Gomes Freire de Andrade afirmava que os quilombolas do Campo Grande estavam entrando nos sítios e nos povoados e levavam deles “... não só os bons escravos e escravas mas matando os senhores... cuidando que tudo em tirar negros em lotes de 10-12 de cada sítio os quais hoje com pouca violência os seguem...”1

Em uma outra de suas várias cartas a respeito do Quilombo do Campo Grande, Gomes Freire de Andrade afirmava que precisava socorrer “... os miseráveis a que não só os tais negros tem levado os escravos, mas insultando-lhes suas famílias, lhes roubarão, sem deixar-lhes uma camisa...”2

Em 1770, a situação ainda era a mesma. Ignácio Correia de Pamplona, escrevendo para o Conde de Valadares, informa que o vigário de Bambui havia lhe escrito contando sobre o “...vexame a aflição em que estão...”. Os quilombolas estavam atacando as fazendas , “destruindo tudo, pondo-o em miserável estado, ultimamente levando os seus escravos e escravas, sem um só lhe deixarem...” 3

Ao atacarem sabiam que estavam despertando a fúria de uma sociedade disposta a acabar com o perigo que eles representavam. Como eram estruturas grandes, de difícil locomoção, o meio mais empregado para se defenderem foi o uso de diferentes tipos de armadilhas, ora com características africanas, ora com marcante presença indígena.

Schwartz ao tratar da segurança de um quilombo na Bahia, denominado Buraco do Tatu, chama a atenção para o fato de que a disposição dos mecanismos de defesa e os tipos utilizados com esse propósito seguem a estética e a funcionalidade africanas:



"...armadilhas cobertas e estacas pontiagudas eram usadas para proteção de povoados na África, a partir da Nigéria em direção sul até o antigo reino do Congo, e foram também utilizadas em Palmares e por outras comunidades de fugitivos."4

O sistema de segurança do quilombo variava de acordo com a sua localização, mas havia um limite claramente estabelecido entre o núcleo de moradia e a mata. Normalmente, esta delimitação era feita através do uso de fortalezas, estrepes e fossos. Mesmo nos quilombos que não possuem algo físico delimitando seu espaço não há como deixar de perceber uma certa limitação espacial da área destinada ao convívio do grupo.

As diferentes construções e suas disposições fazem com que haja uma delimitação natural no ambiente do quilombo.

O Quilombo da Tábua, por exemplo, no momento em que foi destruído em 1769 possuía além da casa principal, 200 outras casas, todas cobertas com telhas e a metade delas estava protegida por uma fortificação5.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

Próximo Texto: Palanques e trincheiras na defesa dos quilombos.
Texto Anterior: As táticas de terrorismo utilizadas pelos quilombolas.

1. APMSC SG Cod 50 fl 43-44
2. Carta de Gomes Freire de Andrade aos Vereadores da Câmara de Vila Rica, em 16.6.1746. In: RAPM. Jan-jun 1903
3. Arquivo Conde de Valadares. Biblioteca Nacional , Seção de manuscritos. Cod. 18,2,6 doc. 65.27.5.1770
4. SCHWARTZ, S. Mocambos, quilombos e Palmares: A resistência escrava no Brasil colonial. In: Estudos Econômicos. São Paulo. Vol. 17 n. especial. 1987. p. 74
5. Carta de Liberato J. Cordeiro ao Conde de Valadares, Arquivo Conde de Valadares. Biblioteca Nacional , Seção de manuscritos. Cod. 18,2,5 doc. 216

Fonte da ilustração: Redescobrindo o Brasil

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