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A dificuldade de distinguir entre pobres e bandidos.

Em carta de junho de 1782, Pedro Gomes Barbosa informava sobre o estado em que achava o garimpo clandestino, repleto de negros que os senhores fingiam estar fugidos e/ou de quilombolas. A Laura de Mello e Souza conclui observando que “...No Distrito Diamantino as autoridades locais fingiam que os garimpeiros eram quilombolas para assim dar continuidade ao extravio e poupar os senhores do confisco de escravos postos de caso pensado na mineração clandestina de diamantes...”1

Machado Filho salienta que “... ao garimpeiro se aliou o quilombola, pois um e outro fora da lei, ainda que por motivos diversos, não tardou se encontrassem solidários, buscando a subsistência nas minerações furtivas...”2

Esta fluidez entre as camadas sociais mais baixas da sociedade foi percebida também na análise das devassas eclesiásticas existentes no Arquivo de Mariana, tornando-se “... amiúde difícil distinguir os homens livres pobres dos escravos e dos quilombolas, sobretudo se os primeiros são forros...”3

O mesmo processo pode ser observado no restante da capitania. Muita vezes a documentação não deixa claro se está tratando de quilombolas, de bandidos ou de garimpeiros clandestinos. Eventualmente a rede de ligações entre eles era tão intensa que, para as autoridades, significavam a mesma coisa. Na realidade, eram todos perniciosos ao sistema uma vez que demonstravam alternativas de vida que não passavam pelo controle das autoridades quer coloniais ou mesmo metropolitanas.

Bandidos eram no século XVIII: “...ladrões de estradas, e assassinos degradados, que andam em bandos correndo... fazendo roubos, violências, hostilidades...”4

Estas mesmas atividades podem ser observadas em documentos que se referem a quilombolas:

“... Os negros calhambolas não deixavam de sair em várias partes desta estrada a fazerem insultos e roubos tanto aos viajantes como aos moradores...e os malfeitores se iam fazendo mais poderosos em número...”5

Igualmente aparecem quando fala de escravos fugidos, sem mencionar que se trata de quilombolas:

“... moradores da freguesia de Santo Antonio do Mato Dentro... experimentado vários roubos, incêndios e morte dos negros fugidos chegando a tal extremo os assassinos que cometiam que lhes proibia a saírem de suas casas a tratarem de suas roças por temerem a morte e por evitarem os assaltos que davam nas casas onde lhes parecia achariam menos resistência...”6.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

Próximo Texto: Os capitães do mato e rentabilidade de seu negócio.
Texto Anterior: Marx e Warner e as hordas de quilombolas.

1. SOUZA, Laura de Melo e. Norma e conflito: aspectos da história de Minas no século XVIII. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. p. 146 e ss
2. MACHADO FILHO, Aires da Mata . O negro e o garimpo em Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1985. p. 20
3. SOUZA, Laura de Melo e. Norma e conflito.... Op. Cit. p. 23
4. BLUTEAU, Raphael. Vocabulário português e latino. Lisboa; Oficina de Pascoal da Sylva, 1713. - Esta publicação já se encontra em sua totalidade gravada em CD-Rom e o trabalho é de responsabilidade da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
5. APM SC 56 p. 102v -103
6. APMSC-SG Cód. 49 fl. 107.

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