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Africanos antropofáficos, análise de gravura do século XVI.


A diversidade entre corpos negros, pardos e brancos ficou muito evidente em Zurara quando, descrevendo um grupo heterogêneo que havia sido aprisionado, assim se referiu: “...era uma maravilhosa cousa de se ver, que entre eles havia alguns de razoada brancura, fremosos e apostos; outros menos brancos, que queiram semelhar pardos; outros tão negros como etíopes, tão desafeiçoados assim nas caras como nos corpos, que quase parecia, aos homens que os esguardavam, que viam as imagens do hemisfério mais baixo...”.1

Percebe-se que os homens que se aproximavam fisicamente dos europeus não receberam nenhum adjetivo negativo. Entretanto, os negros eram “desafeiçoados”. Novamente, a diferença impera e serve como elemento definidor de padrões físicos, aceitos ou não.

Com relação aos aspectos culturais, Zurara descreve os habitantes da África como homens que:

“...viviam em perdição das almas e dos corpos... das almas, enquanto eram pagãos, sem claridade e sem lume da Santa Fé; e dos corpos, por viverem assim como bestas sem alguma ordenança de criaturas razoáveis, que eles não sabiam que era pão nem vinho, nem cobertura de pano, nem alojamento de casa...”2

As descrições feitas por Cadamosto, por Alphonse de Saintonge e por Pacheco Pereira no que se
refere aos seus hábitos e cultura assemelham-se as de Zurara e todas são pautadas pela ausência. Seus reis não se pareciam em nada aos reis cristãos3 ua cultura material era pobre, não usavam pedras, cal, ferro, aço ou navios4 Não havia edifícios e suas casas eram de palhas5 Sua fé era instável6. Não havia leis.7
Faziam guerras uns aos outros 8 e alguns, eram antropófagos9. Sobre este último “defeito” é curiosa esta imagem do século XVI:

Africanos antropofágicos
Fonte: “Os íncolas do Reino do Congo e os Anzicos”. Gravura da obra Relatione del Reame di Congo de Pigafetta e Duarte Lopez. 1591

Esta gravura poderia representar uma cena do cotidiano africano se não fosse o detalhe ao fundo mostrando uma espécie de depósito de carne humana. O responsável pelo “depósito” está calmamente repartindo um corpo de um homem e pendurando as partes de forma que fiquem visíveis. A partir desta informação pictórica, a cena posterior pode assumir dois significados: trata-se de uma cena de caça ou de combate, onde um dos presentes será o próximo a ocupar os ganchos do “depósito”. O que teria levado o autor da imagem a representá-la? Teria assistido algo parecido ou tudo não passaria de sua imaginação ou da vontade de impressionar com uma história portadora de elementos mais violentos? Infelizmente, não há qualquer menção que possa explicar a imagem, mas a mensagem moral e didática passada pelo quadro é muito clara: os africanos além de tudo o que já se sabia, eram antropófagos. Logo, o cativeiro tornava-se ainda mais essencial para a salvação destas almas...

Para os europeus, Azenegues, “gente pobre, mentirosos, ladrões, traidores e com mal cheiro”, ou negros, “gente selvagem, muito pobre, porcalhões, luxuriosos e idólatras” eram, em sua maioria, feras que precisavam conhecer a civilidade para passar a um nível mais evoluído da humanidade. Esta civilidade só seria conseguida através dos contatos com os europeus, da aceitação da verdadeira religião e das trocas feitas: trocava-se ouro e escravos por agrados e presentes.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.
Próximo Texto: A sociedade letrada e o cativeiro negro no Brasil: o bom e o mau escravo.
Texto Anterior: A beleza dos Azenegues justifica sua liberdade.


1 ZURARA, Gomes Eanes. op. cit. p. 122
2 ZURARA, Gomes Eanes. op. cit. p. 126
3 CADAMOSTO, Luis de. op. cit. p. 117
4 Ibidem
5 PEREIRA, Pacheco Duarte. op. cit. p. 118
6 ZURARA, Gomes Eanes. op. cit. p. 124
7 CADAMOSTO, Luis Eanes de. op. cit. p. 147
8 PEREIRA, Pacheco Duarte. op. cit. p. 97
9 Ibidem p. 171 e ZURARA, Gomes Eanes. op. cit. p. 212

Comentários

Anônimo disse…
Aqui é um espaço que conta a história do grande sertão, no qual o município viu-se inserido em seus primórdios. JOSÉ ROBERTO SALES, colaborador no Projeto Partilha e autor de obras sobre Varginha-MG, em seu livro, Breve História de Varginha-MG. 1763-1922, p. 57 estuda a questão da Segurança, através das Companhias de Ordenanças, no espaço territorial de Varginha-MG. Carmo da Cachoeira, ainda hoje, pertence a Comarca de Varginha. Vamos dar a palavra ao autor:
"Em 'Distritos de Ordenanças em 1823', faziam parte da freguesia de Lavras do Funil, as Catandubas, com 744 habitantes, e Varginha, com 645 habitantes (FEU DE CARVALHO, 1922).
Em 1837, a região do atual município de Varginha fazia parte do grande distrito paroquial de Sant´Anna de Lavras do Funil, atual município de Lavras, do qual dependiam 30 outros distritos, entre eles o 'Dito das Catandubas', com 121 fogos (residências) e 744 almas e o 'Dito da Varginha', arraial com 78 fogos (o autor fala logo em seguida que são 96 fogos) e 645 almas (MATOS, 1837/1979). As informações fornecidas pelo autor não permitem identificar qual dos 'ditos' citados, Varginha ou Catandubas, teria sido o povoado que deu origem à atual cidade de Varginha. No entanto, não resta dúvida de que são povoados distintos já que tiveram sua contagem populacional feita individualmente. De qualquer modo, sendo Varginha ou Catandubas, os dados populacionais estão muito aquém daqueles fornecidos cinco anos antes pelo censo de 1832, que informavam que o distrito do Spirito(sic) Santo da Varginha possuia 375 fogos e uma população de 1855 habitantes (ARQUIVO Público Mineiro. Coleção Mapas de População. Relação dos habitantes do distrito do Spirito Santo da Varginha, freguezia de Lavras, termo da Villa de São João d´ElRey, 1832). Através dos documentos consultados, não foi possível identificar a razão dessa diferença nem a metodologia utilizada para a contagem populacional..
O povoamento de Varginha pelo homem branco e negro dá-se no final do século XVIII, na época da Capitania das Minas Gerais. Lefort (1948, p. 24) afirma que em 1763, documento episcopal se refere à Ermida de Santo antônio - Capela de Santo Antônio (10 Anuário Eclesiástico da Diocese da Campanha, 1948). Essa seria a mais remota referência documental sobre a região de Varginha. O autor também afirma, baseado em registros de batizados em Campanha e Lavras, que no período 1790-1793, algumas famílias provenientes dessas cidades, trouxeram seus escravos e construíram residências na fazenda Santo Antônio do Bom Jardim do Rio Verde. Ele considera que esse período marca o início do povoamento de Varginha".
Anônimo disse…
Ao se referir "as terras da região central de Varginha, com aproximadamente 48 alqueires, ou seja, 2.323.200,00 metros quadrados (calculado pelo valor do alqueire mineiro 1 alqueire = 48.400 metros quadrados pertenciam ao coronel Francisco Alves da Silva (1756?-1848) e sua mulher D. Thereza Clara Rosa e Silva (1788?-1840) sendo adquiridas anos antes de 1806. O casal vivia de 'engenho de cana e de roça'. No documento '1894 Patrimônio da Matriz do D. E. Santo da Varginha',(...) o capitão Francisco Alves da Silva em 12 de novembro de 1806 vendeu o sítio por quatrocentos mil réis para o procurador dos povos aplicados - ou seja, a população católica de Varginha -, alferes Manuel Francisco de Oliveira".
José Roberto cita dados documentais dos primeiros moradores. Dona Tereza Clara Rosa de Jesus, que poderá, também vir grafada com "h" Thereza, poderá ter tido outros casamentos, e não apontados por José Roberto, por sair de seu foco de estudo. Existe uma, citada no estudo de MANOEL ALVES VALLE na região, e na mesma época histórica, no entanto, em outro casamento, que poderá vir a nos interessar, pela presença do "Alves", inserido em nossas buscas.

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