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Socialização para evitar a fuga dos escravos.

A historiografia recente tem procurado analisar a família escrava em suas particularidades. Ela tem aparecido com características bem definidas, quer seja pelo caráter de estabilidade nas relações, quer pela presença da vontade da população escrava intervindo diretamente na escolha do parceiro.1

Analisando por um outro lado, percebe-se que a instituição familiar era um mecanismo de que os grandes proprietários lançavam mão para melhor controlar seus escravos. O senhor tinha consciência de que se o cativo possuísse uma família e portanto, laços sociais mais fortes e abrangentes através do compadrio com outros escravos, seriam mais difíceis a rebelião e a fuga.

A família possuía, assim, diversas características. De um lado servia em alguns casos como um controlador da escravaria, elemento necessário para a manutenção da tranqüilidade nas senzalas; de outro, para o escravo era um meio de aumentar sua socialização, seus mecanismos básicos de adaptação e consequentemente melhorar sua condição de vida dentro do sistema.

A Antropologia demonstra claramente que o casamento é uma relação social de importância crucial porque, entre outros motivos, relaciona-se com vários fatos sociais que interagem na sociedade. E conclui que os casamentos nos grupos de pequena escala são muito mais importantes do que nas sociedades tidas como "modernas", já que estes pequenos grupos precisam manter os laços de união e de proteção acarretados pelo casamento, assim como precisam manter o nível de nascimentos compatíveis com a sua capacidade econômica.

Sahlins2 analisando a função do parentesco em sociedades tribais, chegou á conclusão de que uma das maneiras de se obter a paz é o parentesco, porquanto estabelece ligações recíprocas e constantes entre todo o grupo. Acreditamos poder expandir esta análise à comunidade escrava, pois as relações entre estes eram permeadas tanto por estratégias de negociação, que nada mais eram do que a manutenção da paz, como também por rupturas, ou seja, as guerras, principalmente entre africanos e crioulos.

Florentino e Góes3 demonstraram que as relações entre africanos e crioulos eram de constantes possibilidades de conflitos tendo em vista não somente o fato de serem grupos com culturas diferentes obrigados à convivência, mas também ao fato de que as mulheres eram sempre em números reduzidos, dificultando as relações sexuais e impondo que determinados sujeitos ficassem sem acesso às suas companheiras.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

Próximo Texto: Escravos com bexigas, bexiguentos ou bexigosos.
Texto Anterior: As fugas e as famílias dos escravos mineiros.


1 MOTA, J. Flávio. Família escrava: uma incursão pela historiografia. In: História, Questões e Debates. Curitiba, 1988
2 SAHLLINS, Marshall. Sociedades tribais, Rio de Janeiro, Zahar, 1974
3 FLORENTINO, Manolo & GÓES, José R. Op. Cit.

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