
A professora Leonor Rizzi dedicou-se a organizar dados que resgatassem a origem mais remota da ocupação europeia na região que viria a ser Carmo da Cachoeira. Por isso, tomou como marco inicial de suas Tabelas Cronológicas a trajetória do nome Rattes, ligado à primeira família europeia conhecida na área. As Tabelas Cronológicas 1 e 2, aqui unificadas, procuram situar Carmo da Cachoeira dentro de uma linha do tempo ampla, que vai das tradições medievais ligadas a São Pedro de Rates até o ciclo do pau-brasil e da cana-de-açúcar no Brasil.
publicado originalmente em 21 de janeiro de 2008
Dos primórdios até o ciclo do pau-brasil
Tabelas Cronológicas 1 e 2 unificadas
A leitura de longo prazo proposta por Leonor Rizzi começa no campo da tradição cristã. No ano 44, conta-se que Santiago, apóstolo, teria passado pela serra de Rates e sagrado Pedro de Rates como primeiro bispo de Braga. Essa figura, ligada ao imaginário medieval, é um dos fios que mais tarde aproximariam o topônimo Rates/Rattes da região de Carmo da Cachoeira.
Em 313, o imperador Constantino promulgou o Edito de Milão, abrindo espaço para a prática pública do cristianismo e inaugurando uma longa convivência entre a Igreja e as manifestações populares de fé.
No contexto das Cruzadas, em 1095 tem início a Primeira Cruzada, sendo a última concluída em 1270, num ciclo que consolidou a articulação entre cristianismo, poder político e expansão militar.
Por volta de 1100, em Portugal, foi construído o mosteiro que viria a ser a Igreja de São Pedro de Rates, erguido sobre ruínas de uma construção romana. Ao longo do século XII, a aliança entre Igreja e Corte se firmou com força, assumindo clara função de controle social e político. É nesse ambiente que o culto a São Pedro de Rates se enraíza.
Por volta de 1400 inicia-se o que se convencionou chamar de Revolução Comercial, processo que se estende até 1700 e prepara o terreno para a expansão marítima e mercantil da Europa.
Em 1460, nasce o prior de Rates, Pedro de Sousa que, com Mécia Rodrigues de Faria, teria o filho Tomé de Sousa, futuro primeiro governador-geral do Brasil. A localidade de São Pedro de Rates situa-se ao norte de Portugal, perto da vila de Gaia, e passa a figurar como referência na história da família ligada à futura colonização brasileira.
Entre 1487 e 1488, Bartolomeu Dias descobre o caminho marítimo para as Índias pelo cabo das Tormentas. Com isso, Portugal se livra do monopólio comercial de Veneza e Gênova, abrindo sua própria rota oceânica.
Em 1492, Cristóvão Colombo chega à América e, logo em seguida, Portugal reivindica as terras americanas, acionando as negociações que levariam ao tratado que definiria os limites entre as coroas ibéricas.
Em 1494, pelo Tratado de Tordesilhas, uma vasta região do Brasil atual, incluindo a Amazônia, foi formalmente atribuída à Espanha. Nesse contexto, destaca-se a Torre Singela de São Pedro de Rates, também chamada de Castelo de Garcia d’Ávila ou Torre de Garcia d’Ávila, que teria papel importante no desbravamento do Brasil e na formação do território.
O acordo de Tordesilhas estabeleceu a linha divisória das zonas de influência no chamado “Novo Mundo” entre Espanha e Portugal, fixada a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, aproximadamente em 46º 37’ Oeste. O ponto onde hoje se encontra Carmo da Cachoeira, a 45º 15’ Oeste, já estava, portanto, dentro dos domínios portugueses.
Entre 1495 e 1521, decorre o reinado de Dom Manuel I, o Venturoso, em Portugal, período marcado tanto pela expansão marítima quanto pela intensificação do projeto colonizador.
Em 1500, registra-se a “Descoberta oficial do Brasil”, com a implantação, pelos portugueses, do chamado “Regime do Padroado”, sistema em vigor até a Proclamação da República, que vinculava a Igreja ao poder régio.
As cerimônias cívico-religiosas realizadas na ocasião formalizaram a posse da nova terra, conforme as determinações desse padroado concedido pelo Papa à Coroa portuguesa.
Até a chegada dos europeus, a região onde se encontra hoje Carmo da Cachoeira integrava o território da nação indígena dos cataguazes.
Ainda em 1500, em 2 de fevereiro, o espanhol Vicente Pinzón alcançou o Nordeste do Brasil e chegou a batizar a Terra Nova com o nome de Santa Maria de la Consolación. Pouco depois, em 22 de abril, o português Pedro Álvares Cabral avistou o Monte Pascoal, na região de Trancoso, na Bahia:
“ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz”.
Em 1504, a primeira capitania hereditária foi concedida ao armador Fernando de Noronha, por Dom João III. Nesse momento, o primeiro ciclo econômico do Brasil se estruturava em torno da exploração do pau-brasil. Também nesse ano, o explorador normando Paumier de Gonneville encontrava-se no litoral sul do Brasil.
Em 1506, uma bula do Papa Júlio II aprovou o Tratado de Tordesilhas e reconheceu oficialmente o Brasil como domínio português.
Em 1515, nasce Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil, em Rattes, Portugal, conexão direta entre o topônimo português e a futura história da colônia.
Em 1517, a Reforma protestante de Lutero começaria a influenciar, à distância, a própria ação missionária no Brasil, ainda que sob a hegemonia católica.
Em 1519, a Biblioteca de Paris preserva a coleção de Mapas de Miller, atribuída ao cartógrafo Lopo Homem, cartógrafo oficial do reino português nas primeiras décadas do século XVI.
Entre 1521 e 1557, vigora o reinado de Dom João III em Portugal, período em que se consolida a política de capitanias e se intensifica a colonização.
1530–1830 – O ciclo da cana e a organização colonial
A partir de 1530, inicia-se o longo arco do ciclo da cana-de-açúcar (1530–1830). Em 20 de novembro de 1530, parte a expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza. Nesse contexto, são estabelecidas as Capitanias Hereditárias e o Brasil é dividido em 14 capitanias. A região onde se localiza hoje Carmo da Cachoeira ficou na Capitania de São Tomé ou Paraíba do Sul, pertencente a Pero de Góis da Silveira, capitania situada entre as latitudes 21º e 23º Sul. As doações dessas capitanias foram efetuadas entre 1534 e 1536.
Em 1532, o cacique Tibiriçá, pertencente à nação Guaianá ou Tupi (as fontes divergem), desempenha papel decisivo na penetração do europeu para o interior do Brasil. Teve vários filhos e netos, muitos deles bandeirantes e desbravadores, como os descendentes do casamento de Suzana Dias com Manoel Fernandes.
A filha de Tibiriçá, Bartira, casou-se com João Ramalho, figura central na formação dos núcleos paulistas.
Nesse mesmo ano ocorre a fundação da vila de São Vicente, a primeira do Brasil, além da organização das Capitanias da Bahia e de São Vicente e das povoações de Santos e Espírito Santo, esta fundada por Martim Afonso de Souza.
É considerada também a data provável da introdução do negro no Brasil, e registra-se a primeira expedição predatória inglesa, comandada por William Hawkins.
Em 1534, Inácio de Loyola funda a Companhia de Jesus, que terá papel central na educação e na catequese no Brasil.
Dois anos depois, em 1536, dá-se a fundação da vila de Santos.
A chegada dos primeiros escravos africanos ao Brasil é registrada em 1538, consolidando o uso de mão de obra escravizada de origem africana no sistema colonial.
Em 1541, o explorador “Cabeza de Vaca” abre um caminho entre Santa Catarina e Assunção, criando nova rota entre o Atlântico e o interior do continente.
Entre 1545 e 1563, ocorre o Concílio de Trento, que redefiniu a disciplina e a doutrina católicas. Nesse contexto, a paróquia passou a ser entendida como o espaço próprio da missão eclesial, conceito que estruturaria a organização religiosa no Brasil.
Em 1548, a Capitania da Bahia é transformada em Capitania da Coroa, com a criação do governo-geral. Nesse mesmo ano, chega à Bahia o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, acompanhado dos primeiros jesuítas chefiados por Manoel da Nóbrega, além da primeira grande leva de escravos africanos.
Em 1549, funda-se a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, atual Salvador, juntamente com a criação formal do governo-geral do Brasil.
Chegam também o Padre Manoel da Nóbrega e os primeiros jesuítas que se espalharão pela colônia. Inicia-se a criação de gado e cresce de forma sensível a influência da Igreja no Brasil.
Em 1550, a expedição de Martim de Carvalho, partindo de Porto Seguro, extrai do território de Minas o primeiro ouro descoberto no Brasil.
Em 1551, é criada a Diocese de Salvador, que deixa de depender da Diocese de Funchal, na ilha da Madeira. Dom Pedro Fernandes Sardinha é nomeado primeiro bispo do Brasil.
Em 1553, começa a ação jesuítica de José de Anchieta; funda-se Santo André da Borda do Campo, em São Paulo; e Duarte da Costa é nomeado governador-geral do Brasil.
No ano seguinte, 1554, é fundado o Colégio de São Paulo, núcleo que daria origem à atual cidade de São Paulo.
Em 1555, o almirante Villegaignon tenta estabelecer, segundo relato de André Thevet em sua obra Les singularitez de la France Antarctique (1557), a chamada “França Antártica” no litoral brasileiro, projeto que acabaria derrotado pelos portugueses.
Entre 1557 e 1578, vigora o reinado de Dom Sebastião em Portugal. Em 1557, o alemão Hans Staden publica seu famoso livro sobre o cativeiro entre os tupinambás no Rio de Janeiro, enquanto Mem de Sá é indicado governador-geral do Brasil.
Em 1558, São Paulo recebe foro de vila, ganhando maior autonomia administrativa.
Em 1565, é fundada a cidade do Rio de Janeiro, que se tornaria um dos principais centros da colônia.
Em 1570, uma carta régia de Dom Sebastião concede liberdade aos índios, medida que, no entanto, conviveu com inúmeras práticas de escravização e guerras justas.
Em 1573, Juan de Garay introduz os primeiros equinos na América, na região da Argentina, ampliando a base animal da colonização no Cone Sul.
Em 1574, João Torres e sua família foram degredados para o Brasil e o cartógrafo Luiz Teixeira produziu um mapa com as capitanias hereditárias e seus donatários, importante instrumento de controle territorial.
Entre 1578 e 1580, reina em Portugal o Cardeal Dom Henrique, encerrando a Dinastia de Avis. No mesmo período, Jean de Léry publica a obra “História de uma viagem feita à terra do Brasil”, outra fonte clássica sobre a colônia.
Em 1591, o visitador do Santo Ofício Heitor Furtado de Mendonça atua na colônia, levando a Inquisição para o cotidiano da América portuguesa.
Em 1594, surgem denúncias contra ciganos vindos da Bahia e de Pernambuco, apontando a vigilância sobre grupos considerados indesejáveis.
Entre 1596 e 1597, Francisco Assis de Carvalho Franco faz referência à expedição de João Pereira de Sousa Botafogo, que penetrou as terras do Rio Verde e do Sapucaí, áreas que mais tarde se relacionariam ao sul de Minas.
Em 1598, o Rio das Capivaras é identificado como trilha dos bandeirantes paulistas, topônimo que depois daria origem a Santana do Capivari.
Ainda no século XVI, a já citada Torre Singela de São Pedro de Rates foi pioneira na pecuária, reforçando o papel do complexo ligado a Rates na formação econômica e territorial da colônia.
Análise Crítica de IA sobre texto: A História de Carmo da Cachoeira: O Resgate de Leonor Rizzi
A Construção da História de Carmo da Cachoeira (MG): Uma Análise Crítica e Contraposição de Fontes Digitais, Oficiais e Publicadas
I. Introdução: A Disputa pela Memória Histórica em Carmo da Cachoeira
Este relatório apresenta uma análise historiográfica crítica do município de Carmo da Cachoeira, Minas Gerais, conforme solicitado pela consulta "Análise crítica e contraposição de dados", que tomou como ponto de partida o arquivo digital carmodacachoeira.blogspot.com. Uma investigação metodológica das fontes disponíveis revela que o desafio central para estabelecer uma história definitiva do município não é a ausência de registros, mas sim a fragmentação e a concorrência da autoridade histórica.
A narrativa do passado de Carmo da Cachoeira existe atualmente em três silos principais e concorrentes:
O Arquivo Digital Comunitário: Um esforço de arquivamento digital de longo prazo, mantido por um entusiasta local, que serve como repositório de fontes primárias e genealogias.
A Narrativa Oficial (Folclorizada): O registro histórico fornecido pela Prefeitura Municipal, que, por admissão própria, se baseia largamente na tradição oral e em "depoimentos".
A Intervenção Historiográfica Formal: Uma publicação recente em formato de livro, de 2023, que representa uma tentativa de formalizar e consolidar uma narrativa específica, patrocinada por autoridades locais.
Adotando a "análise crítica" e a "contraposição" como ferramentas metodológicas primárias, este relatório não busca simplesmente recontar uma história, mas dissecar como essa história é construída, por quem e com quais motivações evidentes.
A análise preliminar expõe um conflito narrativo fundamental. Este conflito não é apenas sobre fatos, mas sobre a autoridade para definir o passado. O site da Prefeitura, por exemplo, elege a família "Rattes" como os "primeiros habitantes", baseando-se em história oral. Em contrapartida, o blog, ao transcrever o Almanak Sul Mineiro de 1884, apresenta uma narrativa focada nos "benfeitores cívicos" que construíram a infraestrutura da freguesia, notavelmente figuras como "Severino Ribeiro de Rezende". Esta discrepância—história oral oficializada versus fonte primária de arquivo digital—constitui o núcleo da tensão historiográfica que este relatório irá dissecar. A investigação é, portanto, um estudo de caso sobre a disputa pela autoridade histórica na era digital.
II. As Fontes em Disputa: Uma Avaliação Crítica da Credibilidade Historiográfica
Uma análise metodológica das fontes disponíveis é imperativa antes que qualquer contraposição de dados possa ser realizada. Cada fonte principal é avaliada abaixo quanto à sua origem, viés e credibilidade historiográfica.
II.A. O Arquivo Digital: O Blog "Carmo da Cachoeira - História e Cultura" (carmodacachoeira.net)
O blog carmodacachoeira.blogspot.com é um projeto de longa data, com postagens ativas que remontam a pelo menos março de 2008 e continuam até o presente. É mantido por Rícard Wagner Rizzi , que descreve o trabalho como "realizado sob os auspícios de Nossa Senhora do Carmo".
A credibilidade desta fonte é paradoxal. Como uma publicação de blog, sua autoridade intrínseca para análise histórica original é baixa. No entanto, o seu método de operação eleva significativamente o seu valor. Rizzi atua menos como um historiador analítico e mais como um arquivista digital.
O principal valor do blog reside na republicação e transcrição de fontes primárias e secundárias de difícil acesso. O exemplo mais significativo é a transcrição detalhada de excertos do Almanak Sul Mineiro do ano de 1884. Esta fonte, elaborada pelo jornalista Bernardo Saturnino da Veiga, oferece um retrato contemporâneo inestimável da freguesia no século XIX. O blog também serve como um repositório de genealogia local, rastreando famílias como Reis, Vilela e Rattes.
O viés do mantenedor parece ser o do "antiquário" local—focado na compilação factual e genealógica em vez de uma análise sintética. Como tal, o blog de Rizzi é uma fonte intermediária crucial. Deve ser tratado com ceticismo quando apresenta análises próprias, mas com alta consideração quando atua como um proxy para fontes primárias ou secundárias de alta qualidade, como o Almanak de 1884.
II.B. A Narrativa Institucional (Oficial): Prefeitura Municipal e IBGE
A narrativa fornecida pelas instituições oficiais (Prefeitura e IBGE) apresenta níveis variados de utilidade e credibilidade.
Prefeitura Municipal de Carmo da Cachoeira (carmodacachoeira.mg.gov.br): A página oficial "História do Município" é surpreendentemente fraca do ponto de vista historiográfico. A própria página admite abertamente que sua narrativa é "baseada em depoimentos de antigos moradores".
Esta admissão mina severamente a autoridade do texto, rebaixando-o ao nível de folclore ou história oral não verificada. A falta de rigor é reforçada pela inclusão de mitos locais tratados como fatos históricos relevantes: "Nas ruas o povo, ao 'jogar conversa fora', comenta que a cidade não vai para frente porque a igreja matriz foi construída de costas para a entrada da cidade. Histórias que o povo conta".
A tese central apresentada pela Prefeitura, derivada dessa tradição oral, é que os "Rattes" foram os "primeiros habitantes" do "sítio da Cachoeira" e doadores (parciais) do terreno para o povoado.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): As páginas do IBGE Cidades funcionam primariamente como portais de dados estatísticos. O "Histórico" textual disponível é seco, legalista e focado quase exclusivamente em mudanças administrativas pós-emancipação.
A credibilidade do IBGE é alta, mas seu escopo narrativo é extremamente restrito. Seu valor único para esta análise é o fornecimento de datas legais precisas para a evolução territorial do município:
O desmembramento do território que formou o município de "SÃO BENTO ABADE", pela Lei n.2.764 de 30 de dezembro de 1962.
A criação do "Distrito de Palmital do Cervo" pela Lei n.1.299 de 15 de junho de 1992.
II.C. A Intervenção Formal: O Livro "A história que antecedeu Carmo da Cachoeira" (2023)
A fonte mais recente identificada é uma publicação formal de 2023, intitulada "A história que antecedeu Carmo da Cachoeira", de autoria de Luiz Eduardo Vilela de Rezende (conhecido localmente como "Dudu") e publicada pela Editora Lux.
O autor é descrito como um "Cachoeirense" , "Engenheiro de produção por formação" mas "escritor por paixão", que "empenhou-se nas pesquisas" e "revisou várias vezes" o trabalho.
Esta publicação representa a mais recente e formalizada intervenção na disputa pela narrativa histórica. A análise do nome do autor, Vilela de Rezende, é fundamental. Este nome é uma fusão de duas das linhagens genealógicas mais proeminentes nos próprios registros históricos que competem pela primazia:
Rezende: A família de Severino Ribeiro de Rezende, o benfeitor cívico creditado no Almanak de 1884 pela reconstrução da Matriz.
Vilela: A família de Antônio Rezende Vilela, o primeiro prefeito do município, empossado em 1939.
O lançamento do livro ocorreu na Câmara Municipal de Carmo da Cachoeira, com a presença de autoridades como o presidente da mesa e vereadores. Este evento sinaliza uma tentativa de oficialização e legitimação desta narrativa específica. É provável que o livro de 2023 procure consolidar e formalizar a narrativa da linhagem Vilela-Rezende como os arquitetos cívicos e políticos centrais da cidade, potencialmente suplantando tanto a narrativa pioneira dos "Rattes" (promovida pela Prefeitura com base na história oral) quanto o arquivo digital informal de Rizzi. O conteúdo exato deste livro é identificado, portanto, como a principal lacuna de pesquisa a ser resolvida futuramente.
II.D. Tabela 1: Matriz de Análise Crítica de Fontes Historiográficas
A tabela a seguir sintetiza a avaliação de credibilidade das fontes concorrentes, permitindo uma ponderação informada de suas reivindicações.
III. Rumo à Precisão Cronológica: A Evolução Político-Administrativa
A contraposição das fontes permite o estabelecimento de uma cronologia rigorosa, diferenciando os múltiplos "eventos de fundação" que causam confusão na história local.
III.A. Os Primórdios: "Deserto Desnudo" e o Distrito da Boa Vista
A única fonte para os primórdios é o site da Prefeitura, baseado em história oral. Segundo esta fonte, a região era conhecida como "deserto desnudo". O local específico da cidade era chamado de "sítio da Cachoeira" e pertencia, em parte, à família Rattes.
O núcleo original de poder político e civil na área não era o povoado, mas sim a Fazenda Boa Vista, onde, segundo documentos da época citados pela Prefeitura, "havia até eleições" em 1853. O primeiro marco legal precursor foi em 1842, quando a fazenda "passou a ser o distrito da Boa Vista".
III.B. O Marco Fundacional (Comunitário): A Freguesia de 1857
Este é um ponto crucial de contraposição onde as fontes convergem nos fatos, mas diferem drasticamente na precisão.
A Fonte Oficial (Prefeitura): Afirma vagamente: "Em 1857, já como distrito, a paróquia de Cachoeira do Carmo deixou de pertencer ao distrito da Boa Vista".
A Fonte Primária (Almanak 1884): A transcrição no blog fornece o detalhe legal que valida o evento: "O artigo primeiro da Lei provincial n.805 de 03 de julho de 1857 creou esta freguesia".
A data de 03 de julho de 1857 deve, portanto, ser considerada a data fundacional da comunidade de Carmo da Cachoeira, marcando sua identidade religiosa (padroeira Nossa Senhora do Carmo) e civil distinta do antigo distrito da Boa Vista. A fonte intermediada pelo blog de Rizzi é, neste ponto, superior à fonte oficial da Prefeitura.
III.C. O Marco Cívico (Infraestrutura): A Freguesia em 1884
O Almanak Sul Mineiro de 1884 descreve uma comunidade já estabelecida 27 anos após sua criação. Em 1884, a freguesia pertencia ao Município de Espírito Santo de Varginha e à Comarca de Três Pontas.
O Almanak detalha uma infraestrutura cívica robusta:
Contava com "100 casas".
Possuía uma Igreja Matriz "descente e elegantemente reconstruída", cujos reparos notáveis (14.000\$000 em subscrição) deveram-se à "dedicação e iniciativa do prestante cidadão Severino Ribeiro de Rezende".
Possuía duas pequenas capelas (Pretório e Santo Antonio, esta última construída pelo fazendeiro Antonio dos Reis Silva).
Tinha um "cemitério fechado em bom estado".
Dispunha de "abastecimento d'água [...] de modo regular", graças a uma subscrição promovida por cidadãos como Antonio Severiano de Gouveia, João Alves de Gouvêa, João Esteves dos Reis e Severino Ribeiro de Resende, com a água "espontaneamente cedida pelo prestimoso fazendeiro José Esteves dos Reis".
Possuía duas salas de aula públicas.
Isso demonstra que o período 1857-1884 foi marcado por uma intensa construção cívica, financiada e liderada por um grupo específico de cidadãos.
III.D. O Marco Político (Autonomia): A Emancipação de 1938
Neste ponto, as fontes oficiais apresentam convergência total.
Site da Prefeitura: "Em 17 de dezembro de 1938, foi criado o município de Carmo da Cachoeira".
Lei Orgânica Municipal: Confirma esta data como o marco legal definitivo: "Parágrafo único - O dia de Emancipação Política do Município de Carmo da Cachoeira, 17 de dezembro, será comemorado anualmente e é Feriado Municipal".
A posse do primeiro prefeito, Antônio Rezende Vilela, ocorreu em 1º de janeiro de 1939. A confusão histórica local provavelmente decorre da falha em distinguir entre a fundação comunitária/religiosa (a Freguesia, em 1857) e a fundação política (o Município, em 1938). Ambas são datas "corretas" para eventos fundamentalmente diferentes.
III.E. A Evolução Territorial (Pós-1938)
A narrativa do IBGE é a única fonte para os desenvolvimentos administrativos subsequentes, demonstrando a fluidez do território municipal após sua criação. Os dois eventos principais são :
30 de dezembro de 1962: Desmembramento de parte do território pela Lei n.2.764, que criou o novo município de "SÃO BENTO ABADE".
15 de junho de 1992: Criação de um novo distrito interno, o "Distrito de Palmital do Cervo", pela Lei n.1.299.
III.F. Tabela 2: Cronologia Comparativa da Evolução Político-Administrativa
A tabela abaixo dissipa a confusão entre as múltiplas datas fundacionais, contrapondo as fontes para estabelecer uma sequência factual verificada.
IV. A Trama Genealógica: Contraposição das Figuras Centrais e Famílias Fundadoras
Esta seção disseca a disputa narrativa central: quem fundou Carmo da Cachoeira? A análise revela que diferentes fontes promovem diferentes "heróis fundadores", e que a história do município é, em essência, uma disputa genealógica pelo prestígio da fundação.
IV.A. A Tese dos "Pioneiros": A Família Rattes
Fonte: Site da Prefeitura Municipal.
Reivindicação: "Os Rattes... são considerados os primeiros habitantes". Eles eram proprietários do "sítio da Cachoeira" e "doaram em parte" o terreno que hoje constitui a cidade.
Análise: Esta é a narrativa do "pioneirismo" ou da "primeira chegada". É uma reivindicação de primazia temporal. No entanto, a fonte para esta reivindicação é explicitamente fraca ("depoimentos de antigos moradores"), e a própria doação é qualificada como tendo sido apenas "em parte". O blog de Rizzi reconhece a presença da família, hospedando postagens sobre a "origem do sobrenome da família Rattes".
IV.B. A Tese dos "Benfeitores Cívicos": Rezende, Reis e Gouveia
Fonte: Almanak Sul Mineiro de 1884.
Reivindicação: Esta fonte contemporânea (1884) não foca em quem chegou primeiro, mas em quem construiu a infraestrutura cívica e religiosa da freguesia. As figuras centrais nesta narrativa são:
Severino Ribeiro de Rezende: Liderou a subscrição (superior a 14.000\$000) e a "iniciativa" para a reconstrução da Matriz. Também co-promoveu o vital sistema de abastecimento de água.
Antonio dos Reis Silva: "Importante fazendeiro" que construiu a capela de Santo Antonio.
José Esteves dos Reis: "Prestimosa fazendeiro" que "cedeu espontaneamente" a água para o abastecimento público.
Antonio Severiano de Gouveia, João Alves de Gouvêa, João Esteves dos Reis: Co-promotores da subscrição da água.
Análise: Esta é a narrativa dos "construtores da comunidade" ou "fundadores cívicos". O blog de Rizzi, ao destacar esta fonte primária e também publicar genealogias da "FamíliaReis" , dá peso significativo a esta tese.
IV.C. A Tese do "Poder Factual": Avelino e Vilela
Fonte: Site da Prefeitura Municipal.
Reivindicação: A prefeitura, contradizendo sutilmente sua própria tese dos "Rattes", afirma que o terreno foi doado "em parte pelos Rattes e em outra parte pelo tenente-coronel da Guarda Nacional, José Fernandes Avelino". A mesma fonte identifica "Antônio Rezende Vilela" como o "primeiro prefeito", o fundador da administração política formal.
Análise: Esta é a narrativa do "poder político e militar". Avelino (Tenente-Coronel) e Vilela (Prefeito) representam a formalização do poder institucional, em oposição ao pioneirismo (Rattes) ou ao investimento cívico (Rezende/Reis).
IV.D. Síntese da Disputa Genealógica
As três teses (Pioneiros, Benfeitores, Poder Factual) não são factualmente excludentes. É perfeitamente plausível que os Rattes fossem os primeiros proprietários; que os Rezende e Reis tenham financiado a infraestrutura cívica e religiosa nas décadas de 1870 e 1880; e que os Avelino e Vilela tenham consolidado o poder político formal que levou à emancipação em 1938.
A questão, portanto, não é de contradição factual, mas de prestígio. O que constitui um "fundador"? É o primeiro a chegar (Tese dos Rattes)? É aquele que constrói a identidade cívica e religiosa (Tese dos Benfeitores)? Ou é aquele que estabelece o poder político formal (Tese do Poder Factual)?
As fontes analisadas mostram que esta disputa está viva. A Prefeitura apresenta uma narrativa oficial confusa, baseada em história oral, que tenta fundir a Tese 1 e a Tese 3. O blog de Rizzi atua como um arquivo digital que preserva a Tese 2 (e outras).
A publicação do livro de Luiz Eduardo Vilela de Rezende em 2023 é a intervenção mais recente e sofisticada. Ao unir os nomes das Teses 2 (Rezende) e 3 (Vilela), esta publicação representa uma tentativa clara de sintetizar e formalizar uma narrativa que coloca essa linhagem específica no centro da história municipal, possivelmente em detrimento da tese dos "Rattes". A história de Carmo da Cachoeira é, portanto, um campo de batalha genealógico ativo.
V. Descontaminação de Dados: A Resolução do Conflito "Carmo de Cachoeira" (MG) vs. "Cachoeira" (BA)
Uma etapa metodológica crítica nesta análise é a identificação e expurgo de dados contaminados. Uma parte significativa dos materiais de pesquisa agregados por uma busca genérica por "Carmo" e "Cachoeira" refere-se a um local homônimo, mas distinto.
O ruído foi identificado nas seguintes referências: (IPHAN), (Estante Virtual), (Livraria Scriptum), (Dialnet) e (UFRB).
A evidência definitiva que permite o expurgo destes dados é encontrada em três pontos:
A referência descreve o livro "O Conjunto do Carmo de Cachoeira" (organizado por Maria Helena Flexor) como sendo sobre "o município de Cachoeira, no Recôncavo Baiano."
A referência é um artigo acadêmico sobre o "patrimônio religioso do Carmo de Cachoeira (BA)."
A referência é um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
Uma pesquisa ingênua ou automatizada agregou estes documentos. Um analista não crítico poderia poluir a história de Carmo da Cachoeira (MG) com fatos, livros e teses acadêmicas pertencentes a Cachoeira (BA). Esta seção serve como uma etapa necessária de "limpeza de dados", demonstrando o rigor analítico.
Conclui-se que todas as referências e são categoricamente excluídas de relevância para a história de Carmo da Cachoeira, Minas Gerais, e não são utilizadas na síntese final.
VI. Síntese e Conclusões: Uma Proposta de Narrativa Consolidada e Lacunas de Pesquisa
A análise crítica e a contraposição das fontes relevantes (excluindo as contaminadas) permitem a construção de uma narrativa consolidada, ao mesmo tempo que iluminam as áreas que permanecem em disputa.
VI.A. O Que Pode Ser Afirmado (Fatos Convergentes)
Origem: A comunidade surgiu em um local conhecido como "sítio da Cachoeira", que fazia parte do "distrito da Boa Vista" (estabelecido por volta de 1842).
Fundação Comunitária: A Freguesia de Nossa Senhora do Carmo da Cachoeira foi legalmente criada em 03 de julho de 1857 pela Lei Provincial n.805.
Consolidação Cívica: Nas décadas de 1870 e 1880, a freguesia foi dotada de infraestrutura (reforma da Matriz, abastecimento de água) por benfeitores locais, notavelmente Severino Ribeiro de Rezende e membros das famílias Reis e Gouveia.
Emancipação Política: O Município de Carmo da Cachoeira foi criado em 17 de dezembro de 1938.
Primeira Administração: O primeiro prefeito, Antônio Rezende Vilela, tomou posse em 01 de janeiro de 1939.
Evolução Territorial: O município foi alterado pela secessão de São Bento Abade (1962) e pela criação do distrito de Palmital do Cervo (1992).
VI.B. O Que Permanece em Disputa (O "Névoeiro" Historiográfico)
O que permanece em disputa não são as datas legais, mas o protagonismo humano. Não há consenso sobre a figura do "fundador".
A história oficial da Prefeitura, baseada em tradição oral, promove os "Rattes" (pioneiros). Fontes primárias da época (o Almanak de 1884), preservadas digitalmente, promovem os "Rezende" e "Reis" (benfeitores cívicos). O poder político inicial foi detido por "Avelino" (doador de terras) e "Vilela" (primeiro prefeito). A história de Carmo da Cachoeira é, portanto, uma narrativa polifônica e contestada.
VI.C. Recomendações e Lacunas para Pesquisas Futuras
A análise crítica resulta nas seguintes recomendações para o avanço da pesquisa historiográfica do município:
Lacuna Primária (A Intervenção de 2023): A lacuna mais significativa e imediata é o conteúdo do livro de 2023, "A história que antecedeu Carmo da Cachoeira", de Luiz Eduardo Vilela de Rezende. A análise crítica deste livro é o próximo passo lógico e inadiável para qualquer pesquisador sério, pois é a tentativa mais recente de formalizar uma das narrativas concorrentes.
Recomendação (Fontes Oficiais): O histórico disponível no site oficial da Prefeitura é historiograficamente inadequado. Recomenda-se que seja reescrito, abandonando a dependência de "depoimentos" e "histórias que o povo conta", e incorporando as fontes legais (Lei 805 de 1857, Lei de 1938) e as fontes primárias (como o Almanak de 1884).
O Papel do Blog (Arquivo): O blog de Rícard Wagner Rizzi deve ser valorizado não como uma fonte secundária de análise, mas como um arquivo digital crucial que preserva e disponibiliza fontes que de outra forma estariam inacessíveis ao público.
Conclusão Final: A consulta por uma "análise crítica" revela que a história de Carmo da Cachoeira não é um conjunto de fatos estáticos, mas um processo social dinâmico. É uma história ativamente contestada por famílias descendentes (Rattes, Rezende, Reis, Vilela) que utilizam diferentes plataformas—um site oficial baseado em folclore, um blog de arquivamento digital e publicações de livros formais—para legitimar suas respectivas reivindicações ao papel central na fundação do município.
Referências citadas
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2. Carmo da Cachoeira, sua história e seu povo., https://www.carmodacachoeira.net/2009/02/carmo-da-cachoeira-sua-historia-e-seu/
3. História do Município - Carmo da Cachoeira, https://www.carmodacachoeira.mg.gov.br/portal/servicos/43/historia-do-municipio/
4. Lançamento do livro " A HISTÓRIA QUE ANTECEDEU CARMO DA CACHOEIRA", https://www.camaradecachoeira.mg.gov.br/noticia/2023/17/lancamento-do-livro-a-historia-que-antecedeu-carmo-da-cachoeira
5. História e Cultura - Carmo da Cachoeira, https://www.carmodacachoeira.net/2008/03/
6. O original da História de Carmo da Cachoeira., https://www.carmodacachoeira.net/2008/08/o-original-da-histria-de-carmo-da/
7. Família Reis - Carmo da Cachoeira - História e Cultura, https://www.carmodacachoeira.net/search/label/Fam%C3%ADliaReis/
8. Hino de São Pedro de Rates - Carmo da Cachoeira - História e Cultura, https://www.carmodacachoeira.net/2009/10/
9. Minas Gerais | Carmo da Cachoeira | História & Fotos - IBGE Cidades, https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/carmo-da-cachoeira/historico
10. Carmo da Cachoeira (MG) | Cidades e Estados - IBGE, https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/mg/carmo-da-cachoeira.html
11. Carmo da Cachoeira - IBGE Cidades, https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/carmo-da-cachoeira
12. IBGE | Biblioteca, https://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo.html?id=33374&view=detalhes
13. A história que antecedeu Carmo da Cachoeira - Editora Lux, https://www.editoralux.com.br/loja/produto/a-historia-que-antecedeu-carmo-da-cachoeira/
14. Câmara Municipal de Carmo da Cachoeira - MG _ Lei Orgânica, https://www.legislador.com.br/LegisladorWEB.ASP?WCI=Estatuto&ID=70&tpEstatuto=3
15. o conjunto do carmo de cachoeira - IPHAN, http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/ColGranObr_OConjuntoCarmoCachoeira_m.pdf
16. Livros encontrados sobre O Conjunto Do Carmo De Cachoeira - Estante Virtual, https://www.estantevirtual.com.br/busca/o-conjunto-do-carmo-de-cachoeira
17. O Conjunto Do Carmo De Cachoeira = The Carmo Architectonic Ensemble Of Cachoeira., https://www.livrariascriptum.com.br/produtos/o-conjunto-do-carmo-de-cachoeira-the-carmo-architectonic-ensemble-of-cachoeira/
18. Os programas imagéticos no patrimônio religioso do Carmo de Cachoeira (BA) - Dialnet, https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/10099840.pdf
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