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Procura-se escravos fugidos: um carregando viola.

Um jornal de Minas Gerais, intitulado “O Guarda Nacional”, assim descreveu quatro escravos
fugidos que estavam presos na cadeia de Ouro Preto1:

“...Annúncio
Na cadeia desta cidade existem quatro escravos fugidos, cujos nomes e signaes são os seguintes: João de nação Moçambique, estatura ordinária. Bem feito de corpo, com signaes nos cantos dos olhos e na testa todos voltados a maneira de meia lua, com riscos dentro dos círculos e uma orelha furada; diz ser escravo de Dona Francisca Bernarda, moradora na rua do Sabão adiante do Largo do Capim da Cidade do Rio de Janeiro e diz que a dita sua Senhora é filha de Lisboa. Frederico de nação Moçambique, baixo, cheio de corpo, dentes abertos, signaes nos cantos dos olhos e na testa todos voltados a maneira de meia lua com riscos dentro do círculo, orelhas furadas, diz ser escravo do capitão Thomaz Francisco, morador na sua Fazenda da Pedra Branca. Pedro de nação Angola, estatura ordinária, cheio de corpo, com faltas de dentes do queixo de cima, diz ser escravo do Alferes José Pereira Valverd, morador na sua Fazenda do Piau. João de nação Congo, estatura ordinária, delgado de corpo, com um signal grande no peito a maneira de um recortado e outros signaes nas costas, uma orelha furada, diz ser escravo de José Bento, morador na Villa de Barbacena. Quando não sejam procurados por seus senhores se entregues a justiça para serem arrematados a fim de se não consumirem em despesas os seus valores.

Ouro Preto, 19.8.1838"

Além dos 14 africanos descritos pelo jornal “O Universal”, havia mais um que portava consigo um elemento de ordem cultural. Durante sua fuga preocupou-se em carregar consigo, seu cachimbo e uma bolsa com tabaco. De acordo com Agostini2, os cachimbos decorados foram usados pelos escravos como mecanismos propiciadores de “manifestação de etnicidade” e como “veículos de informação” sobre suas culturas africanas, muitas vezes recriadas no Brasil.

Entretanto, o tabaco não era de uso exclusivo de africanos.

"José Custódio, crioulo, fugiu em setembro de 1827, carregando tabaco e uma viola. Além destes elementos tradicionais da cultura africana, alguns outros anúncios remetem a visões que procuravam mostrar o cativo com características psicológicas conferidas pelos seus senhores: dois africanos foram identificados como sendo muito ladinos; um crioulo, que costumava mudar o nome de seu senhor, foi considerado como “muito esperto e velhaco em seus negócios”2; outro como “muito vivo de natureza”; um outro como “folião” e um último como “civilizado e muito espevitado”3

1 AGOSTINI, Camilla. Resistência cultural e reconstrução de identidade: um olhar sobre a cultura material do escravo do século XIX. In: Revista de História Regional. V.3. n.2, 1998, UEPG.
2 Anúncio do Jornal “ O Universal”. 23.5.1831
3 Idem 2.2.1831

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