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O colonizador europeu e as diferenças tribais.

Os habitantes da terra de Santa Cruz em seus primeiros contatos com europeus, já narravam a existência de seres identificados como não-homens, vivendo numa área distante, no interior. Eram os índios que os europeus acabaram mais tarde identificando aos Tapuia. Para os Tupi que viviam no litoral, os habitantes do interior eram diferentes porque não eram associados com o mundo conhecido e possuíam uma outra cultura. Cada grupo via o outro como formado por “não-homens” porque não possuíam os valores esperados e nem falavam a mesma língua. Cada um via o outro como desprovido de humanidade.

Levi Strauss, tentando explicar este conceito indígena de humanidade, assim se expressou:

“... A humanidade cessa nas fronteiras da tribo, do grupo lingüístico, às vezes mesmo da aldeia; a tal ponto que um grande número de populações ditas primitivas se designam por um nome que significa os “homens” (ou por vezes, digamos com mais discrição – os “bons”, os “excelentes”, os “perfeitos”), implicando, assim que as outras tribos, grupos ou aldeias não participem das virtudes – ou mesmo da natureza- humana, mas são, quando muito, compostos por “maus”, “perversos”, “macacos de terra” ou “ovos de piolhos...”

É curioso perceber que, de uma certa forma, os portugueses ao interagirem com os Tupi através de casamentos, alianças ou mesmo do uso da língua Tupi-Guarani, apropriaram-se de seus valores, bem como das imagens que faziam sobre os Tapuia e o Sertão. Assim, além do português identificar o Sertão como o espaço longe da costa, passou a identificá-lo também, numa aparente contradição, como área despovoada e ao mesmo tempo habitada pelos Tapuia, estes mais bárbaros do que os Tupi. Na realidade, o Sertão para o português seria sempre identificado como espaço vazio de elementos civilizados, logo, vazio de populações que merecessem algum tipo de tratamento humano.

Por tudo isto, pode-se perceber que os Tupi não só auxiliaram como também legitimaram as guerras coloniais contra os Tapuia e também o seu extermínio e escravização, pois estes, além de serem diferentes, eram inimigos. Isto explica o porquê da utilização, por parte de portugueses e depois por colonos, de algumas tribos que lutavam ao lado destes contra outros grupos. Era apenas uma retomada, agora sob novo prisma, de uma guerra secular entre os diferentes grupos indígenas

Para o Tupi, tratava-se de manter acesa a tradição da guerra contra aquele que vivia em uma região afastada e de maneira diferente, podendo então ser guerreado, morto, devorado ou escravizado. Para o português, interessava não só manter este conflito, como também obter o controle sobre suas terras e sobre uma possível mão de obra. Assim, os interesses de ambos os lados confluíam. Há que se ressaltar, todavia, que as disputas não ocorriam apenas entre Tupi e Tapuia. Mesmo no interior destes grupos havia guerras e inimizades seculares e os colonos souberam utilizar muito bem estas divergências.

Trecho de um trabalho sobre Minas Gerais colonial de Marcia Amantino.

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