Pular para o conteúdo principal

História de Carmo da Cachoeira, os primórdios.

O município de Carmo da Cachoeira tem sua história contada pelas obras de Resende e garantida por Jorge Fernando Vilela, através do projeto que teve como objetivo "fazer falar fontes silenciosas e arredias", consolidado através da obra "O Sertão do Campo Velho", em fase final de elaboração, foram verdadeiros baluartes na história do município. No entanto, continua aguardando resposta a pergunta arquivada na biblioteca particular do Prof. Wanderley Ferreira de Rezende ao eminente genealogista Ary Forenzano: “... o senhor José Mariano diz que tinha 12 anos quando foi batizado. O acontecimento ocorreu em 1855, quando foi bento o cemitério. ... temos que localizar a construção do antigo cemitério, ... você sabe alguma coisa sobre uma capela que, segundo dizem, existiu aqui no cemitério antes da outra ser construída no largo?” E, em outra anotação ele nos deixa mais alguns dados: “O local escolhido... em 1844 foi o mesmo onde se encontra o atual cemitério. Foi construída uma capelinha dedicada a Nossa Senhora do Carmo, onde os padres que por aqui passavam celebravam missas, faziam batizados, casamentos, etc”., e mais: “Segundo contaram-me, há muitos anos, pessoas idosas naquela época, havia no local apenas duas casas: a residência dos Rates, que os da minha idade ainda conheceram e que ainda existe hoje e pertence ao Sr. Benjamim Thomaz da Silva, que nela reside, situada na Rua Domingos Ribeiro de Rezende.” 1

Como temos visto no decorrer do trabalho, a época em que o Brasil era colônia de Portugal, o funcionamento da engrenagem administrativa do Reino era muito diferente de tudo o que vivemos hoje. Havia o Padroado.

O termo padroado refere-se a um tratado entre a Igreja Católica e os reinos de Portugal e Espanha. A Igreja delegava aos reis a administração da Igreja em seus domínios. O rei nomeava padres e bispos. Neste ambiente a freguesia era a célula menor da estrutura administrativa do Reino de Portugal. Tinha dimensão religiosa e político-administrativa. A Coroa não criava uma freguesia num lugar que não tivesse um bom número de famílias instaladas e um comércio que se mostrasse promissor.

No Livro de Provisões da Cúria do Rio de Janeiro encontra-se, em 1739, a provisão para o funcionamento do Cemitério do Campo Belo e do Cemitério do Deserto Dourado, hoje São Bento Abade. Ambos pertencentes a Nossa Senhora das Carrancas. Em 1771 a família de Manoel Antonio Rates já estava aqui instalada e a área já havia sido limpa, o que deve ter ocorrido na época da provisão dos dois cemitérios. Haveria um arraial na latitude S 21° 27’ 40” e longitude W Gr 45° 13’ 30”? Quem estaria por aqui anteriormente? Seriam só negros aquilombados?

A presença de Manoel Antônio Rates parece não ter atraído a religiosidade para o lugar. Sua família usava as ermidas da fazenda Paraíso e as do Padre Bento. O batizado em sua casa foi realizado com o altar portátil do Padre Bento.

As citações que encontramos do termo Cachoeira, anteriores a 1730, referem-se a Rosário, Lavras. Os arquivos eclesiásticos de Lavras trazem um volume intenso de nomes já nessa época, cujas ermidas se localizavam em locais mais próximos dos rios, como: a Barra, o Faria, Espírito Santo dos Coqueiros, Espírito Santo de Varginha, São Bento Abade, Campo Belo, Nepomuceno, entre outros. Lá estão também os nomes da família Rates.

A instituição religiosa foi se firmando à medida que as pessoas chegavam a esta região. Instalavam-se nos sítios, sesmarias e se mobilizavam para erigir as capelas e ermidas. O certo é que apenas em 1805 com o Padre Joaquim Leonel de Paiva e Silva houve um religioso atuando como capelão na fazenda Maranhão. Antes disso coube aos leigos a construção das primitivas capelas, assim como a escolha de seus padroeiros.

O processo de pedido de licença para a construção de uma capela era feito através de carta encaminhada ao bispo, que ao conceder a provisão, indicava os procedimentos a serem adotados. Aqui, assim como na nossa vizinha cidade de Luminárias, recaiu a escolha na Virgem Maria. A presença de uma imagem era um fato que contribuía para a permanência dos devotos em seu entorno. A insegurança física nesta região do sertão inculto era compensada pela segurança espiritual, sobrenatural, divina.

Viver nestas rudes regiões necessitava de um forte amparo espiritual, e ninguém melhor que a Mãe Universal, a Virgem Maria, para este conforto. Tê-la junto de si, compartilhando os medos e as alegrias de cada dia, sob seu carinho, orientação, proteção e amor, é o que dava forças àquela comunidade.

A provisão para a ereção da capela de Nossa Senhora do Carmo não se encontra nesta comemoração do Sesquicentenário da criação da freguesia, pode ter sido autorizada pelo rei de Portugal. As fazendas tinham vida própria e auto-suficientes.
Buscamos em Luís Câmara Cascudo, expoente da historiografia brasileira, a definição de freguesia, que é o termo que aparece na documentação eclesiástica do período colonial, como território sob a jurisdição de uma mesma paróquia. Em alguns locais já se consideravam os termos freguesia e paróquia como sinônimos. Freguesia é uma tradição exclusivamente ibérica, recebida de Portugal no século XVI, correspondendo à expressão “territórios povoados, dispersa ou aglomeradamente, tendo assistência sacramental de uma mesma casa de orações, capela ou igreja”, a exemplo de “uma família onde todos os membros estavam ligados pelo ditame poderoso da unidade religiosa”. Assim sendo, era “o assistente habitual, a presença costumeira, o companheiro assíduo”, ou seja, era o conjunto de “ovelhas” que freqüentavam a mesma matriz.

Era para esses fregueses que os Pastores de Deus deveriam servir de exemplo e fazer frutificar a terra dos corações com a abundância de suas boas obras.

Coisa difícil foi sempre a elevação de uma capela a Paróquia. Porque interferem, geralmente, muitas razões favoráveis e desfavoráveis, e muitos lugares, embora antigos, jamais alcançarão tal título. Povoada que estava a capela, seus habitantes receberam, com festas, a notícia da criação da Paróquia.

Projeto Partilha - Leonor Rizzi
Próxima matéria: A família de dona Umbelina Honória de Andrade.
Artigo Anterior: A história de Carmo da Cachoeira, por Mons. Lefort.

1 – Carta datada de 1975.

Comentários

Anônimo disse…
Fui conferir se a imagem é a mesma do altar. Não é que é el mesma. Mora em Cachoeira e nunca percebi tamanha beleza. Uma relíquia.
Anônimo disse…
É a imagem que está na capa do CD comemorativo dos 150 anos. Legal, né?

Mais lidas no site

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt...

A organização do quilombo.

O quilombo funcionava de maneira organizada, suas leis eram severas e os atos mais sérios eram julgados na Aldeia de Sant’Anna pelos religiosos. O trabalho era repartido com igualdade entre os membros do quilombo, e de acordo com as qualidades de que eram dotados, “... os habitantes eram divididos e subdivididos em classes... assim havia os excursionistas ou exploradores; os negociantes, exportadores e importadores; os caçadores e magarefes; os campeiro s ou criadores; os que cuidavam dos engenhos, o fabrico do açúcar, aguardente, azeite, farinha; e os agricultores ou trabalhadores de roça propriamente ditos...” T odos deviam obediência irrestrita a Ambrósio. O casamento era geral e obrigatório na idade apropriada. A religião era a católica e os quilombolas, “...Todas as manhãs, ao romper o dia, os quilombolas iam rezar, na igreja da frente, a de perto do portão, por que a outra, como sendo a matriz, era destinada ás grandes festas, e ninguém podia sair para o trabalho antes de cump...

A família do Pe. Manoel Francisco Maciel em Minas.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: Sete de Setembro em Carmo da Cachoeira em 1977. Imagem anterior: Uma antiga família de Carmo da Cachoeira.

Mais lidas nos últimos 30 dias

Cemitério dos Escravos em Carmo da Cachoeira no Sul de Minas Gerais

Nosso passado quilombola Jorge Villela Não há como negar a origem quilombola do povoado do Gundú , nome primitivo do Sítio da Cachoeira dos Rates , atual município de Carmo da Cachoeira. O quilombo do Gundú aparece no mapa elaborado pelo Capitão Francisco França em 1760 , por ocasião da destruição do quilombo do Cascalho , na região de Paraguaçu . No mapa o povoado do Gundú está localizado nas proximidades do encontro do ribeirão do Carmo com o ribeirão do Salto , formadores do ribeirão Couro do Cervo , este também representado no mapa do Capitão França. Qual teria sido a origem do quilombo do Gundú? Quem teria sido seu chefe? Qual é o significado da expressão Gundú? Quando o quilombo teria sido destruído? Porque ele sobreviveu na forma de povoado com 80 casas? Para responder tais questões temos que recuar no tempo, reportando-nos a um documento mais antigo que o mapa do Capitão França. Trata-se de uma carta do Capitão Mor de Baependi, Thomé Rodrigues Nogueira do Ó , dirigida ao gove...

O jovem João de Tomás de Aquino Villela

Família Vilela deixa seus passos marcados O Dr. Jorge Fernando membro da tradicional Família Vilela de Carmo da Cachoeira é bisneto do ilustre educador e diretor do Colégio de Santo Tomás de Aquino no povoado. O referido colégio foi citado por Bernardo da Veiga, no Almanak Sul-Mineiro , 1884, pg. 190, época em que era Vigário da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo da Cachoeira, Mons. Antônio Joaquim da Fonseca. O texto cita o colégio e o quadro dos profissionais que o compõem. No século XIX , João de Aquino Villela, educador em uma Instituição de Ensino - Colégio de Santo Tomás de Aquino No século XX , seu bisneto, o heraldista Dr. Jorge Fernando Vilela cria um de nossos símbolos, o Brasão do Município de Carmo da Cachoeira, MG Aproveitando a oportunidade oferecida pela aproximação de pessoas da mesma família interferindo na dinâmica de ação e interação com a sociedade e o meio ambiente, vamos partilhar com os visitantes desta página, através de imagens, como era o centro da Freguesia n...

Biografia de Maria Antonietta de Rezende

Tendo como berço Carmo da Cachoeira, Maria Antonietta Rezende , nasceu a 9 de outubro de 1934 no seio de uma das mais tradicionais famílias do município – a Família Rezende . A professora Maria Antonietta deixou seu legado, o “modelo de compromisso e envolvimento com a terra em que nasceu” . Trabalhou consciências, procurando desenvolvê-las, elevá-las. Fazia isto com seus alunos, com os componentes dos grupos musicais que coordenava, com as crianças ligadas à Igreja, enfim, com toda população. Foi um exemplo vivo de “compromisso com a tradição” e um elo da longa corrente que chegou até nós neste ano comemorativo. Fez sua parte. Nós fazemos a nossa – manter a tradição. No dia-a-dia deixou o exemplo de vida e através de publicações, sua visão de mundo. Editou “Evocações daqui e de além” , “Encontro e desencontros” e “Coletânea de hinos litúrgicos” . Dedicou sua vida ao estudo, à educação e à sua Igreja, como catequista, cantora e liturgista. Patrick A. Carvalho, ao prefaciar sua obra “...
de Ribeiro de Figueiredo: Santuário ecológico em Carmo da Cachoeira - MG , fazenda Córrego das Pedras. Seus atuais proprietários e guardiães Aureliano chaves Corrêa de Figueiredo e seu filho Lúcio Chaves Corrêa de Figueiredo. Na fazenda uma capela,a e sob a proteção de Santa Terezinha. Vi o Evando realizando reportagem fotográfica no local. Conheço o local e as pessoas. São dignas e o local, com sua mata preservada são o maior tesouro existente em Cachoeira.

O antigo cruzeiro do Cemitério da Chamusca.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: Antiga foto aérea da fazenda Caxambu, MG. Imagem anterior: Profª. Luna Dias no Cemitério da Chamusca.

Mais Lidas nos Últimos Dias

Cemitério dos Escravos em Carmo da Cachoeira no Sul de Minas Gerais

Nosso passado quilombola Jorge Villela Não há como negar a origem quilombola do povoado do Gundú , nome primitivo do Sítio da Cachoeira dos Rates , atual município de Carmo da Cachoeira. O quilombo do Gundú aparece no mapa elaborado pelo Capitão Francisco França em 1760 , por ocasião da destruição do quilombo do Cascalho , na região de Paraguaçu . No mapa o povoado do Gundú está localizado nas proximidades do encontro do ribeirão do Carmo com o ribeirão do Salto , formadores do ribeirão Couro do Cervo , este também representado no mapa do Capitão França. Qual teria sido a origem do quilombo do Gundú? Quem teria sido seu chefe? Qual é o significado da expressão Gundú? Quando o quilombo teria sido destruído? Porque ele sobreviveu na forma de povoado com 80 casas? Para responder tais questões temos que recuar no tempo, reportando-nos a um documento mais antigo que o mapa do Capitão França. Trata-se de uma carta do Capitão Mor de Baependi, Thomé Rodrigues Nogueira do Ó , dirigida ao gove...

O jovem João de Tomás de Aquino Villela

Família Vilela deixa seus passos marcados O Dr. Jorge Fernando membro da tradicional Família Vilela de Carmo da Cachoeira é bisneto do ilustre educador e diretor do Colégio de Santo Tomás de Aquino no povoado. O referido colégio foi citado por Bernardo da Veiga, no Almanak Sul-Mineiro , 1884, pg. 190, época em que era Vigário da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo da Cachoeira, Mons. Antônio Joaquim da Fonseca. O texto cita o colégio e o quadro dos profissionais que o compõem. No século XIX , João de Aquino Villela, educador em uma Instituição de Ensino - Colégio de Santo Tomás de Aquino No século XX , seu bisneto, o heraldista Dr. Jorge Fernando Vilela cria um de nossos símbolos, o Brasão do Município de Carmo da Cachoeira, MG Aproveitando a oportunidade oferecida pela aproximação de pessoas da mesma família interferindo na dinâmica de ação e interação com a sociedade e o meio ambiente, vamos partilhar com os visitantes desta página, através de imagens, como era o centro da Freguesia n...

Biografia de Maria Antonietta de Rezende

Tendo como berço Carmo da Cachoeira, Maria Antonietta Rezende , nasceu a 9 de outubro de 1934 no seio de uma das mais tradicionais famílias do município – a Família Rezende . A professora Maria Antonietta deixou seu legado, o “modelo de compromisso e envolvimento com a terra em que nasceu” . Trabalhou consciências, procurando desenvolvê-las, elevá-las. Fazia isto com seus alunos, com os componentes dos grupos musicais que coordenava, com as crianças ligadas à Igreja, enfim, com toda população. Foi um exemplo vivo de “compromisso com a tradição” e um elo da longa corrente que chegou até nós neste ano comemorativo. Fez sua parte. Nós fazemos a nossa – manter a tradição. No dia-a-dia deixou o exemplo de vida e através de publicações, sua visão de mundo. Editou “Evocações daqui e de além” , “Encontro e desencontros” e “Coletânea de hinos litúrgicos” . Dedicou sua vida ao estudo, à educação e à sua Igreja, como catequista, cantora e liturgista. Patrick A. Carvalho, ao prefaciar sua obra “...