Pular para o conteúdo principal

Prof. Otávio Alvarenga escreve ao prof. Wanderley.

Coqueiral, 3 de outubro de 1933.

Meu caro Wanderley.

Salve.

Li e reli a sua substanciosa carta que a sua generosidade houve por bem dirigir-me.

Nela constatei a mais verdadeira verdade. Realmente, sou um espírito imbuído de atroz pessimismo. Sou pessimista na verdadeira acepção do termo. Aliás, sempre fui. Herdei a melancolia atávica e oriunda dos três fatores éticos que formaram a alma sentida da minha raça. Educado à luz das doutrinas de Schopenhauer, compreendendo que o mundo é um Jordão imenso de lágrimas, onde nós, quais incertas naus, velejamos sem leme, eu contemplo tudo pelo prisma do excelso filósofo de "Dores do Mundo".

Eis porque eu sinto a gândica Dor universal nas catedrais recônditas do meu Eu! Se eu, às suaves e passageiras emanações do lago azul do Sonho, cantei o encantamento e os quiméricos deslumbramentos do mundo ideal, foi para pagar um tributo à minha rude lira de humilde sonhador. Em regra geral, o sonhador, no dealbar da Vida, crendo que as efêmeras delícias das rosas redolentes de um tálamo nupcial, duram muito. E sonha com uma Canaã prometedora de felicidade inefável. Assim, pensando que a vida era uma eterna Primavera, um sonho eterno e róseo, como os rosais floridos, dormi para sonhar com os lábios cheios de promessa de uma mulher.

Porém, quando acordei, vi que a Vida é uma formidanda quimera enganosa! Uma ilusória miragem do deserto! E nós somos os míseros beduínos, que, em vão procuram o frescor da linfa marulhante de um oásis! Com Álvares de Azevedo, corri e voei atrás do Ideal, mas não o alcancei. Convenci-me, desarte de que o mundo ideal é uma utopia dos deuses.Quantas vezes, meu culto amigo, a mocidade, plena de ilusões, haure a ambrósia passageira da taça esmeraldina de Hebe, não se lembrando de que, no fundo dessa taça, contém o fel dos desenganos. Infelizmente, a juventude contemporânea, demasiadamente útil, vaidosa e sem sentimento, não pensa, entretanto, assim!

Nós, os desiludidos e crentes no duro e verdadeiro apotegma, "memento, homo", bradado pelo Eterno, com o espanto daqueles milhões de fantasmas da "Divina Comédia", de Dante, espreitamos o galopar deste século dos loucos cilícios da carne, do Epidauro das vaidades vestidas de damasco. Do grosseiro materialismo que zarpa as energias másculas da Vida universal!

Portanto, como disse alguém, transformemos mesmo a nossa pena em puxante para cortar os casos dos asnos humanos, que, conquanto vestidos de vaidades e jactância, só sabem ornejar e escoucear. Chicoteemos os dândis reles, para quem o sentimento é um mito e a casa das hetairas devassas - permita-me a hipérbole - a consagração de um apostolado de prazeres impúdicos.

Vejamos o que disse a jovem e culta Áurea de Oliveira Neta, quando fazia a apreciação do meu livro "Árquipélogo dos Sonhos". Além de profundas considerações e palavras encomiásticas, disse: "Neste século de depravação, em que reina o egoísmo, impera a vaidade, domina o orgulho; neste século, repito, em que irmãos se maculam com o sangue fratricida, nações se erguem contra nações, em que a mão assassina não só fere o corpo, mas também a alma, o bom é quase sempre encarnecido, de 'louco'! Loucos! ... Loucos são, justamente, os que lhe atiram, em face, com um sorriso zombeteiro nos lábios, este epíteto cruel irônico! O sarcasmo dos homens, porém, não atinge o seu alvo, porque, muito acima das fraquezas da humanidade, paira o espírito sonhador. O bom escritor é um mentor da humanidade. Tendo o homem forte propensão para o mal, deixa-se influenciar, com inaudita facilidade, pelas leituras que corrompem o coração e, inoculando-lhe o veneno asqueroso do mal, assassinam a alma, atirando o incauto infeliz ao lodaçal horroroso do erro, do vício e até do próprio crime. O homem, que quer alimentar cérebros com a vaidade pérfida e enganadora de um verdugo é um assassino de consciências, ao passo que o bom escritor é um verdadeiro mestre.Escritores, vós que possuis a imaginação fértil; vós que sois os pioneiros do progresso intelectual e moral, alimentai sequiosos espíritos humanos com as águas salutares e benéficas da Verdade e do Bem. Encaminhai as inteligências para uma nova aurora de ressurreição e de Vida! Inoculai, nos corações, a Caridade! Censurai, com a vossa pena, o vício; aconselhai o mau; dirigi ao arrependido palavras de perdão e conforto; encorajai os que lutam; louvai o bom e dai-lhe perseverança; instrui os cérebros juvenis, moldando-lhes o caráter, para que a geração brasileira de amanhã seja forte, verdadeira e boa, constituindo o orgulho do nosso amado Brasil, terra privilegiada, mãe de grandes heróis e famosas intelectualidades".

Agora, meu preclaro colega, sejamos mesmo da escola da Dor. Esta é a maior força redentora e criadora. A teriaga dos que se abrigam sob o pálio da Fé. Os gênios e os grandes Iniciados da Humanidade viveram enclausurados no Getsemani dessa companheira do Ghandi da Índia dos antigos vedas. Grande verdade nos deparam os versinhos de Francisco Otaviano. Quem passou pela vida e não sofreu, não viveu. Acreditava eu no que disse a fina poetisa uruguaia, em sua lira alva e suave:

"Ama ... Sueña,nada mas dulce que sueñar y amar!"

Hoje, porém, descreio das efêmeras magias do sonho e do amor profano.

Assim, meu caro Wanderley, eu também te concito: dinamitemos a pirâmide do mefítico orgulho e da tola vaidade humana. Mostremos aos vaidosos, estultos e convencidos de serem os sabiás da Vida o nada das coisas "vanitas vanitatum et omnia vanitas". Indiferentes à poeira dos zoilos despeitados, sigamos em nossa sublime Cruzada.

Quem sobe ao Capitólio, disse o altíssimo Castro Alves, vai precedido de pó! ...

Um forte amplexo do confrade e irmão espiritual,

Otávio J. Alvarenga

Carta aberta dirigida ao Professor Wanderley Ferreira de Rezende.

Projeto Partilha - Leonor Rizzi

Comentários

Mais lidas no site

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt...

A organização do quilombo.

O quilombo funcionava de maneira organizada, suas leis eram severas e os atos mais sérios eram julgados na Aldeia de Sant’Anna pelos religiosos. O trabalho era repartido com igualdade entre os membros do quilombo, e de acordo com as qualidades de que eram dotados, “... os habitantes eram divididos e subdivididos em classes... assim havia os excursionistas ou exploradores; os negociantes, exportadores e importadores; os caçadores e magarefes; os campeiro s ou criadores; os que cuidavam dos engenhos, o fabrico do açúcar, aguardente, azeite, farinha; e os agricultores ou trabalhadores de roça propriamente ditos...” T odos deviam obediência irrestrita a Ambrósio. O casamento era geral e obrigatório na idade apropriada. A religião era a católica e os quilombolas, “...Todas as manhãs, ao romper o dia, os quilombolas iam rezar, na igreja da frente, a de perto do portão, por que a outra, como sendo a matriz, era destinada ás grandes festas, e ninguém podia sair para o trabalho antes de cump...

A família do Pe. Manoel Francisco Maciel em Minas.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: Sete de Setembro em Carmo da Cachoeira em 1977. Imagem anterior: Uma antiga família de Carmo da Cachoeira.

Mais lidas nos últimos 30 dias

O Capitão Diogo Garcia da Cruz.

G ravura da obra O Capitão Diogo Garcia da Cruz de Ricardo Gumbleton Daunt , onde se lê: O Capitão Diogo Garcia da Cruz neto de Diogo Garcia e Júlia da Caridade naturais da Ilha do Faial e sua geração. A Edição de que o Projeto Partilha dispõe foi editada em São Paulo - 1974 foi revista, ampliada e atualizada pelo Professor Caio de Figueiredo e Silva. Próxima imagem: Denise Garcia e os Garcia Frades. Imagem anterior: As três ilhõas de José Guimarães.

Ave Maria na Igreja Matriz N. Srª. Carmo

Recital de Piano e Canto em Carmo da Cachoeira Além do pianista Francis Vilela e das mezzo-sopranos Larissa Amaral e Maisa Nascimento, durante a apresentação do tema Berceuse da Suíte Dolly, de Gabriel Fauré houve a participação especial do pianista Hélcio Barone Júnior, formado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade São Paulo. Um momento especial, raro, em que os espectadores puderam apreciar uma apresentação de pianos a quatro mãos. A Ave Maria, ou ave-maria, também chamada de Saudação Angélica, é uma oração, que saúda a Virgem Maria baseada nos episódios da Anunciação e da Visitação (Lucas 1:28-42). Segundo São Luís Maria Gringnon de Montfort, cada vez que se reza a Ave Maria, a Virgem Maria no céu louva a Deus por nós com seu canto, o Magnificat  A Ave Maria é repetida várias vezes na recitação do Santo Rosário, uma oração completa, porque nela reside a história da nossa salvação ao meditar os mistérios da vida de Jesus e Maria; incluindo as orações, do Credo; o Pai...

Hino do Centenário de Carmo da Cachoeira

letra: Haroldo Ambrósio Caldeira música: Álvaro Arcanjo Athaíde interpretação: Glória Caldeira teclado: Teresa Maciel do Nascimento estúdio de som: João Paulo Alves Costa - DjeCia edição de vídeo: Rícard Wagner Rizzi Letra do Hino do Centenário Cem anos de existência bem vivido Cantemos este hino de alegria Saudando essa data memorável do nosso centenário nesse dia. Cachoeira, Carmo da Cachoeira, Berço de um povo acolhedor Ergue hoje um pavilhão Rendendo Graças ao Senhor.

Inventários de Antônio Dias de Gouveia e esposa

A ntônio Dias de Gouveia , falecido em 27 de junho de 1789, teve seu inventário aberto na paragem da Ponte Falsa da Freguesia de Santa Ana de Lavras do Funil, do termo de São João Del Rey, Minas e Comarca do Rio das Mortes, tendo como inventariante sua esposa Ana Teresa de Jesus. Nos chama a atenção os limites e os bens que ficaram de herança. “(...) que de uma banda parte com fazenda de João Francisco Carvalho e com a fazenda chamada a dos Barreiros”. J á o inventário de Ana Teresa de Jesus, Ana Teresa de Jesus, filha de Maria da Assunção Franca e Manoel Alves Pedrosa, cita como seu genro Manoel Pereira de Carvalho; Gabriel Antônio de Carvalho e Joaquim Antônio de Carvalho e os filhos João Dias de Gouveia e irmãos. E aponta como bens: fazenda Chamusca – 14:090$000; fazenda Rio Grande – 3.000$000; fazenda Palmital – 200$000; terreiro fazenda Chamusca – 1.000$000; terreiro da fazenda Rio Grande – 400$000; terreiro da fazenda Caxambu – 270$000. A fazenda Chamusca ficou em comum,...

O livro da família Reis, coragem e trabalho.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: 24º Anuário Eclesiástico - Diocese da Campanha Imagem anterior: A fuga dos colonizadores da Capitania de S. Paulo

Mais Lidas nos Últimos Dias

O Capitão Diogo Garcia da Cruz.

G ravura da obra O Capitão Diogo Garcia da Cruz de Ricardo Gumbleton Daunt , onde se lê: O Capitão Diogo Garcia da Cruz neto de Diogo Garcia e Júlia da Caridade naturais da Ilha do Faial e sua geração. A Edição de que o Projeto Partilha dispõe foi editada em São Paulo - 1974 foi revista, ampliada e atualizada pelo Professor Caio de Figueiredo e Silva. Próxima imagem: Denise Garcia e os Garcia Frades. Imagem anterior: As três ilhõas de José Guimarães.

Ave Maria na Igreja Matriz N. Srª. Carmo

Recital de Piano e Canto em Carmo da Cachoeira Além do pianista Francis Vilela e das mezzo-sopranos Larissa Amaral e Maisa Nascimento, durante a apresentação do tema Berceuse da Suíte Dolly, de Gabriel Fauré houve a participação especial do pianista Hélcio Barone Júnior, formado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade São Paulo. Um momento especial, raro, em que os espectadores puderam apreciar uma apresentação de pianos a quatro mãos. A Ave Maria, ou ave-maria, também chamada de Saudação Angélica, é uma oração, que saúda a Virgem Maria baseada nos episódios da Anunciação e da Visitação (Lucas 1:28-42). Segundo São Luís Maria Gringnon de Montfort, cada vez que se reza a Ave Maria, a Virgem Maria no céu louva a Deus por nós com seu canto, o Magnificat  A Ave Maria é repetida várias vezes na recitação do Santo Rosário, uma oração completa, porque nela reside a história da nossa salvação ao meditar os mistérios da vida de Jesus e Maria; incluindo as orações, do Credo; o Pai...

Hino do Centenário de Carmo da Cachoeira

letra: Haroldo Ambrósio Caldeira música: Álvaro Arcanjo Athaíde interpretação: Glória Caldeira teclado: Teresa Maciel do Nascimento estúdio de som: João Paulo Alves Costa - DjeCia edição de vídeo: Rícard Wagner Rizzi Letra do Hino do Centenário Cem anos de existência bem vivido Cantemos este hino de alegria Saudando essa data memorável do nosso centenário nesse dia. Cachoeira, Carmo da Cachoeira, Berço de um povo acolhedor Ergue hoje um pavilhão Rendendo Graças ao Senhor.