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As tropas e a grandeza nacional

Havia tropeiros que possuíam ate dez lotes de burros, sendo que no oeste mineiro, um lote era constituído de sete animais. Daí se calcula, o volume de interesses econômicos e sociais que empunhava um simples tropeiro naqueles tempos. E os mais inteligentes e operosos adotavam roteiros magníficos, com o fim de melhor aproveitar o esforço da romagem. Um, para exemplo - Joaquim Gonçalves de Freitas, de Santana do São João Acima, hoje Itaúna - obedecia, no tempo da seca, o alucinantes itinerário que se segue: partia de Santana com a tropa carregada de gêneros e tecidos de algodão da incipiente indústria local com destino ao porto de Estrela, no fundo da baía de Guanabara. É claro que havia fretes para as localidades do percurso, mas o destino era o velho porto fluvial, onde recebia cargas para o norte da Mata do Rio e sul do Espírito Santo, procurando Grão-Mogol, que ele chamava de Grã-Magu; ali recebia carregamento de algodão e couros para retornar ao porto da Estrela, onde finalmente se provia de cargas com destino à Santana e praças de permeio. Gastava nesse giro os seis meses da seca.
Roteiros dessa envergadura levaram por todos os cantos da Colônia a vida nascente do comércio, e são inúmeras as cidades hoje florescentes que nasceram em torno dos ranchos de tropas, ao calor da trempe dos tropeiros.
A cidade do Rio de Janeiro deve à sua opulência e grandeza ao fenômeno das tropas. Descobertas as minas de ouro e aberto o Caminho Novo de Garcia Paes, foram as tropas conduzindo o ouro para o litoral e retornando carregadas de utilidades, que deram ao Rio tal preponderância que, em pouco, era transferida da Bahia para as margens da Guanabara a sede do governo colonial.
Das tropas falou Caio Prado Júnior que "Sem elas o Brasil teria andado mais devagar que andou". E Henderson arregalou os olhos diante da variedade e complexidade do arreiamento de uma tropa que ele vira no Rio de Janeiro, em que se misturavam os cabrestos, buçais, cangalhas com retrancas e peitorais, seligotes, bastos, socadinhos, catuchas, lombilhos, pelegos, caronas, albardas, mantas e baixeiros sobrecilhas, sobrecargas, badanas, arrochos, topes de baeta vermelha ou de panos de cores vivas nos fardos, cabeçadas, couros crus dobrados ao meio e com o pêlo para dentro a cobrirem as cargas e defendê-las do mau tempo, "formando um conjunto bizarro para quem estava habituado às magníficas estradas européias - lisas, polidas, ensombradas, percorridas por luzentes parelhas e, hoje, cortadas pelas rodas fofas dos ofegantes Rolls-Royces"...
A lucidez do governo imperial reconhecia a importância da tropa e do tropeiro, quando isentava este do recrutamento militar, como determinava o aviso do Ministério da Guerra, datado de 14 de outubro de 1822.

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