Pular para o conteúdo principal

O pressentimento do boiadeiro e o retorno ao lar.

─ Os senhores, por ventura, não estão cansados de ouvir as tolas recordações de um velho?

─ Não, senhor Venâncio. Pelo contrário, estamos muito interessados no seu caso e fazemos questão de ouvi-lo até o seu final.

─ Admira-se este interesse por narrações de velhos, porque à mocidade de hoje já não lhe sobra tempo para determinados sentimentalismo. A vida se tornou tão agitada, tantos são os motivos que existem por aí afora para suas distrações, que os moços sempre procuram evitar os velhos, cujas palestras lhes parecem sempre sensaboronas; para os moços e mesmo até as crianças de hoje os velhos não passam de uns ignorantes, mas não vale a pena cometar tais assuntos. Deus, que fez este mundo assim, lá se avenha com ele e vamos em frente:

Quanto mais eu me aproximava da casa, mais pressentia que lá se passava alguma coisa que não me seria agradável. Por que será que, em certas circunstâncias de nossa vida, nós sentimos a previsão de acontecimentos que nos dizem respeito, previsão que quase sempre se transforma em realidade? Já tenho procurado uma explicação para este mistério da vida humana e cada vez me sinto mais incapaz de resolvê-lo. E a verdade é que meu coração pulsava desordenadamente quando me aproximei da porta da casa, que se encontrava fechada e no mais absoluto silêncio; nem o tropel do cavalo parando ali perto trouxe fora nenhum dos moradores e com isto mais impressionado fiquei.

Sei, meus amigos, que a narrativa deste período de minha vida vai-se tornando enfadonha e, para não lhes tomar o tempo com pormenores inúteis, vou resumir o resto em poucas palavras:

Ritinha lá estava na cama, às portas da morte e, no entanto, ainda me reconheceu e conseguiu reunir forças e sorri tristemente para mim. Durante cinco dias e cinco noites vivi como louco, ora a rezar com fervor de fanático, ora a blasfemar como um possesso. Ao sexto dia o momento terrível do desenlace parecia iminente: a crise atingira o ponto culminante e a enferma já não dava acordo de coisa nenhuma; imóvel na cama, não reconhecia ninguém, não abria os olhos e quase não consegue engolir os remédios que teimavam em lhe pôr na boca. Estavam mortas todas as esperança. Ritinha estava liquidada.

Não tive forças para assistir aos seus últimos momentos e saí a correr pelo meio dos campos e dos matos, em mangas de camisa, cabelos em desalinho, como se estivesse ficado completamente doido. Dois dias e duas noites vaguei sem rumo, sem nenhum alimento a não ser a água dos córregos, que não conseguia abrandar a febre que me queimava cá por dentro. Até hoje não consigo compreender como não me passou pela mente a idéia do suicídio; parece que eu estava tão desorientado que nem disso me lembrara ou então o destino, contra o qual tantas vezes blasfemara, velava por minha vida."

E o Venâncio, num suspiro, ajuntou:

Mas, como já disse, tudo neste mundo tem um fim, inclusive a mesma Dor. E ai de nós, se assim não fosse!

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Gaveta Velha.

Próximo trecho: O desfecho da história do boiadeiro Venâncio.
Trecho anterior: O amor e a vida como era vista por um jovem boiadeiro.

Comentários

Mais lidas no site

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt...

A organização do quilombo.

O quilombo funcionava de maneira organizada, suas leis eram severas e os atos mais sérios eram julgados na Aldeia de Sant’Anna pelos religiosos. O trabalho era repartido com igualdade entre os membros do quilombo, e de acordo com as qualidades de que eram dotados, “... os habitantes eram divididos e subdivididos em classes... assim havia os excursionistas ou exploradores; os negociantes, exportadores e importadores; os caçadores e magarefes; os campeiro s ou criadores; os que cuidavam dos engenhos, o fabrico do açúcar, aguardente, azeite, farinha; e os agricultores ou trabalhadores de roça propriamente ditos...” T odos deviam obediência irrestrita a Ambrósio. O casamento era geral e obrigatório na idade apropriada. A religião era a católica e os quilombolas, “...Todas as manhãs, ao romper o dia, os quilombolas iam rezar, na igreja da frente, a de perto do portão, por que a outra, como sendo a matriz, era destinada ás grandes festas, e ninguém podia sair para o trabalho antes de cump...

A família do Pe. Manoel Francisco Maciel em Minas.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: Sete de Setembro em Carmo da Cachoeira em 1977. Imagem anterior: Uma antiga família de Carmo da Cachoeira.

Mais lidas nos últimos 30 dias

O Capitão Diogo Garcia da Cruz.

G ravura da obra O Capitão Diogo Garcia da Cruz de Ricardo Gumbleton Daunt , onde se lê: O Capitão Diogo Garcia da Cruz neto de Diogo Garcia e Júlia da Caridade naturais da Ilha do Faial e sua geração. A Edição de que o Projeto Partilha dispõe foi editada em São Paulo - 1974 foi revista, ampliada e atualizada pelo Professor Caio de Figueiredo e Silva. Próxima imagem: Denise Garcia e os Garcia Frades. Imagem anterior: As três ilhõas de José Guimarães.

Ave Maria na Igreja Matriz N. Srª. Carmo

Recital de Piano e Canto em Carmo da Cachoeira Além do pianista Francis Vilela e das mezzo-sopranos Larissa Amaral e Maisa Nascimento, durante a apresentação do tema Berceuse da Suíte Dolly, de Gabriel Fauré houve a participação especial do pianista Hélcio Barone Júnior, formado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade São Paulo. Um momento especial, raro, em que os espectadores puderam apreciar uma apresentação de pianos a quatro mãos. A Ave Maria, ou ave-maria, também chamada de Saudação Angélica, é uma oração, que saúda a Virgem Maria baseada nos episódios da Anunciação e da Visitação (Lucas 1:28-42). Segundo São Luís Maria Gringnon de Montfort, cada vez que se reza a Ave Maria, a Virgem Maria no céu louva a Deus por nós com seu canto, o Magnificat  A Ave Maria é repetida várias vezes na recitação do Santo Rosário, uma oração completa, porque nela reside a história da nossa salvação ao meditar os mistérios da vida de Jesus e Maria; incluindo as orações, do Credo; o Pai...

Hino do Centenário de Carmo da Cachoeira

letra: Haroldo Ambrósio Caldeira música: Álvaro Arcanjo Athaíde interpretação: Glória Caldeira teclado: Teresa Maciel do Nascimento estúdio de som: João Paulo Alves Costa - DjeCia edição de vídeo: Rícard Wagner Rizzi Letra do Hino do Centenário Cem anos de existência bem vivido Cantemos este hino de alegria Saudando essa data memorável do nosso centenário nesse dia. Cachoeira, Carmo da Cachoeira, Berço de um povo acolhedor Ergue hoje um pavilhão Rendendo Graças ao Senhor.

Inventários de Antônio Dias de Gouveia e esposa

A ntônio Dias de Gouveia , falecido em 27 de junho de 1789, teve seu inventário aberto na paragem da Ponte Falsa da Freguesia de Santa Ana de Lavras do Funil, do termo de São João Del Rey, Minas e Comarca do Rio das Mortes, tendo como inventariante sua esposa Ana Teresa de Jesus. Nos chama a atenção os limites e os bens que ficaram de herança. “(...) que de uma banda parte com fazenda de João Francisco Carvalho e com a fazenda chamada a dos Barreiros”. J á o inventário de Ana Teresa de Jesus, Ana Teresa de Jesus, filha de Maria da Assunção Franca e Manoel Alves Pedrosa, cita como seu genro Manoel Pereira de Carvalho; Gabriel Antônio de Carvalho e Joaquim Antônio de Carvalho e os filhos João Dias de Gouveia e irmãos. E aponta como bens: fazenda Chamusca – 14:090$000; fazenda Rio Grande – 3.000$000; fazenda Palmital – 200$000; terreiro fazenda Chamusca – 1.000$000; terreiro da fazenda Rio Grande – 400$000; terreiro da fazenda Caxambu – 270$000. A fazenda Chamusca ficou em comum,...

O livro da família Reis, coragem e trabalho.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: 24º Anuário Eclesiástico - Diocese da Campanha Imagem anterior: A fuga dos colonizadores da Capitania de S. Paulo

Mais Lidas nos Últimos Dias

O Capitão Diogo Garcia da Cruz.

G ravura da obra O Capitão Diogo Garcia da Cruz de Ricardo Gumbleton Daunt , onde se lê: O Capitão Diogo Garcia da Cruz neto de Diogo Garcia e Júlia da Caridade naturais da Ilha do Faial e sua geração. A Edição de que o Projeto Partilha dispõe foi editada em São Paulo - 1974 foi revista, ampliada e atualizada pelo Professor Caio de Figueiredo e Silva. Próxima imagem: Denise Garcia e os Garcia Frades. Imagem anterior: As três ilhõas de José Guimarães.

Ave Maria na Igreja Matriz N. Srª. Carmo

Recital de Piano e Canto em Carmo da Cachoeira Além do pianista Francis Vilela e das mezzo-sopranos Larissa Amaral e Maisa Nascimento, durante a apresentação do tema Berceuse da Suíte Dolly, de Gabriel Fauré houve a participação especial do pianista Hélcio Barone Júnior, formado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade São Paulo. Um momento especial, raro, em que os espectadores puderam apreciar uma apresentação de pianos a quatro mãos. A Ave Maria, ou ave-maria, também chamada de Saudação Angélica, é uma oração, que saúda a Virgem Maria baseada nos episódios da Anunciação e da Visitação (Lucas 1:28-42). Segundo São Luís Maria Gringnon de Montfort, cada vez que se reza a Ave Maria, a Virgem Maria no céu louva a Deus por nós com seu canto, o Magnificat  A Ave Maria é repetida várias vezes na recitação do Santo Rosário, uma oração completa, porque nela reside a história da nossa salvação ao meditar os mistérios da vida de Jesus e Maria; incluindo as orações, do Credo; o Pai...

Hino do Centenário de Carmo da Cachoeira

letra: Haroldo Ambrósio Caldeira música: Álvaro Arcanjo Athaíde interpretação: Glória Caldeira teclado: Teresa Maciel do Nascimento estúdio de som: João Paulo Alves Costa - DjeCia edição de vídeo: Rícard Wagner Rizzi Letra do Hino do Centenário Cem anos de existência bem vivido Cantemos este hino de alegria Saudando essa data memorável do nosso centenário nesse dia. Cachoeira, Carmo da Cachoeira, Berço de um povo acolhedor Ergue hoje um pavilhão Rendendo Graças ao Senhor.