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O amor e a vida, na visão de um jovem boiadeiro.

... a chuva continuou ainda por alguns dias com grande satisfação de meu patrão, que andava, sem que eu o soubesse, preso aos encantos de uma cunhada do dono da fazenda; e eu, de meu lado, não perdi tempo. O instinto me ensinou, em algumas horas, todas as artimanhas indispensáveis a um autêntico apaixonado e, graças a elas, consegui meios de penetrar na casa dos pais de Ritinha e insinuar-me em sua confiança.

Estava dado o primeiro passo e só me faltava falar a sós com a moça. Isto foi o mais difícil, porém, afinal, consegui. De como decorreu esta primeira entrevista, os senhores poderão fazer uma idéia: de um lado, eu, com o meu acanhamento e a minha falta de hábito no trato com mulheres; do outro, ela, quase criança, pois teria ainda uns 17 anos, inexperiente e esquiva, como todas as caipirinhas. Apesar de tudo, quando o tempo melhorou e pudemos seguir viagem, tanto eu como meu patrão estávamos noivos e partimos deixando a promessa de que voltaríamos tão depressa quandto possível.

Entretanto nossa volta foi muito mais demorada do que esperávamos, não só devido ao esfriamento dos negócios, mas também pela dificuldade em adquirir todo o gado de que necessitávamos. Em outras ocasiões, estas contrariedades nada significavam para mim; mas agora eu já não era o mesmo homem calmo e despreocupado de antes; tornei-me inquieto e irritadiço e qualquer coisinha era motivo para minhas explos~ies de nervosismo.

Os senhores, que talvez não se tenham encontrado em situação igual a minha, certo não podem imaginar o inferno em que vivi, durante oito meses em que fiquei longe de minha noiva e sem receber qualquer notícia. Tormentos infernais rugiam em meu peito pois, à saudade que me torturava, vinha juntar-se o ciúme mais feroz e o temor de que Ritinha, tão ciança ainda, me esquecesse facilmente e desse o seu amor a outro.

Houve dias em que estive por pouco a deixar de lado todos os meus deveres e voltar e voar aonde me queria levar o coração e era com muita dificuldade que conseguia sopitar meus sentimentos. Enfim, como tudo neste mundo acaba, também meus tormentos tiveram o seu final e foi com o coração a palpitar, que de novo avistei a casa de minha noiva. Mas eu me sentia atormentado por não sei que pressentimentos maus.

Neste ponto Venâncio interrompeu sua narrativa. Com a maior fleuma fez um cigarro, acendeu-o, e puxou algumas fumaças.

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Gaveta Velha.

Próximo trecho: O pressentimento do boiadeiro e o retorno ao lar.
Trecho anterior: Um primeiro enconto a moda antiga.

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