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A proclamação da República chega a Minas.

Aqui Neca nos conta como foi vista a chegada da República pelo povo simples da cidade de Carmo da Cachoeira no Sul de Minas Gerais.

Houve a Proclamação da República. O ano era de 1889. O lugar era o Brasil. Caiu a Monarquia, e foi aqui instaurada nova forma de Governo - o regime republicano.

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!

Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro.
Brilha, avante, da Pátria no Altar!

Quanta mudança. Começou a andar pelas fazendas o Tabelião. Chegava ele com um livro grande e preto nas mãos. Era tudo solene, vinha para registrar os brasileiros, terras. Tudo direitinho. Com Tabelião não se brinca. É gente do Novo Governo. Antes, os papéis eram feitos na Igreja, até os registros de terras. O nome de ninguém pode ficar de fora desse livro preto. Nem que falar sobre as terras também. Só que o registro é em outro livro. Aria, chama a criançada. Toda criança, naquela época usava a "camisolinha". Não tinha diferença no vestir "masculino" e "feminino". Menininha e menininho, todo mundo de camisolinha. Nem precisa chamar, a visita era importante, e todo mundo espreitava, com um pouco de medo. Mané Saraiva ia logo sossegando a turma: "pode entrar na fila, aqui ninguém morde". Ninguém se preocupava em saber quem nasceu antes ou depois. Ia lá escrevendo o nome e estimando a data de nascimento. Tudo meio inventado. A única coisa de verdade, era a presença da criançada postada em fila, e ... ..., ninguém deixava de responder quando o Tabelião perguntava: "você é menino ou menina?" Sabe porque respondiam logo? "Para que o Mané Saraiva não viesse levantar a beirada da camisinha, e mostrar logo ... ..."

Nos encontros depois da janta, todo mundo queria contar como é que foi o dia. Um dia diferente e cheio de medo. Nessa noite, nada de jogar "bispa" e "trunfo", nem de pular corda, ou brincar de amarelinha. Cada um queria escutar, como é que o outro fez com seu medo. Aria e Mané reforçavam o que os filhos falavam e davam apoio para cada um. Enfim, agora eram um novo momento da vida do País.

Liberdade! Liberdade!

Neca e o Projeto Partilha - Leonor Rizzi

Próxima matéria: A morte do caçador e a Cruz do Bié.
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