
Apontando para uma sainha muito Branca, que por entre as ruínas da fazenda antiga se destacava ao longe, o Venâncio deu início à sua narrativa:
Foi lá, sim. Foi lá onde se encontra agora aquela casinha nova que os senhores estão vendo, à beira do brejal, que vi a Ritinha pela primeira vez. Naquele tempo eu teria vinte e cinco anos, era um caboclo forte, destemido e trabalhava com um dos mais ricos boiadeiros do Sul de Minas. De tempos a tempos afundávamos para as bandas do Triângulo Mineiro, onde adquiríamos ótimas partidas de gado que vendíamos a bom preço na feira de Três Corações.
A despeito de minha vida errante, gozando de total liberdade, sempre fui avesso a conquistas amorosas e cheguei aos vinte e tantos anos sem ter tido sequer uma namorada. E por quê? Timidez ou aversão ao belo sexo? Nada disso. Eu mesmo não saberia explicar o que se passava comigo toda vez que me aproximava de uma moça.
Meu cavalo era, então, a minha namorada, a que eu dedicava todo o meu afeto, todo o meu carinho. Dias após dias, por esses sertões afora, que acompanhando os passos morosos da boiada ou a galopar atrás de um boi manhoso que se tresmalhara, eu e meu cavalo levávamos uma existência que parecia ser o nosso único ideal no mundo.
Como ainda sinto, e bem grandes, as saudades daqueles tempos em que galopava no rosilho, aqui rompendo cerrados, ali saltando touceiras e buracos pelo meio dos campos, acolá atirando o laço certeiro num garrote rebelde! Alegre, despreocupado, não tinha tempo para pensar no futuro e nem poderia imaginar que não estava longe o dia em que deveria pagar o meu tributo ao amor. Eu lhes contarei como tudo veio a acontecer...
... no próximo trecho.
Prof Wanderley Ferreira de Rezende
trecho do Livro: Gaveta Velha.
Próximo trecho: O velho boiadeiro relembra o velho sertão mineiro.
Matéria anterior: A eleição de um verdadeiro representante da cidade.
Comentários
vou acompanhar trecho por trecho essa historia até o fim.