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Dos senhores de terras à Revolta de 1736.

[No início do século XVIII]

Muitas fazendas pertenciam a pessoas poderosas moradoras do litoral nordestino, e eram administradas por homens de confiança. Um exemplo é a figura de Manuel Nunes Viana, administrador da fortuna de uma rica família da Bahia. Outras propriedades pertenciam a paulistas que, deixando a mineração, transferiram seu cabedal para a agropecuária. Outras eram investimentos de mineradores, que decidiram trabalhar também com a agropecuária, como Domingos do Prado.

Naturalmente esse diversificado conjunto de proprietários tinha interesses e ligações os mais díspares, principalmente quando o assunto era a ingerência da Coroa em seus negócios. Alguns colaboravam com os ministros reinóis visando obter privilégios e cargos na governança ou na chefia de milícias. Outros, ao contrário, permaneciam independentes e distantes dos olhos fiscalizadores, pois assim, além de manterem o seu poder de mando na região, podiam agir como facilitadores dos descaminhos provenientes da região mineradora.

Trabalhando para esses potentados, encontravam-se negros africanos, índios, mulatos, mamelucos e homens livres pobres, os quais além de cuidarem do gado e da lavoura, muitas vezes serviam de guarda armada a esses homens. A região ainda abrigava quilombos e tribos indígenas.

A outra face deste território era seu caráter de terra de refúgio, onde fixavam residência pessoas oriundas de diversas regiões, perseguidas ou por delitos reais ou por conspirações contra o governo metropolitano. Essas pessoas mantinham estreitas relações com os moradores importantes das Minas e das principais cidades coloniais, e transitavam livremente entre suas propriedades nas três capitanias.

Logo no sertão não viviam apenas vadios pobres ou pessoas “incivilizadas”, mas sim, pessoas bem relacionadas, contra quem os Oficiais do Reino viviam em constante luta, visando “domesticá-los”, ou seja, torná-los homens bons e leais vassalos do Rei.

Na realidade, essa parte do território colonial apresentava características bem específicas, não se vinculando à economia de exportação. Além disso, não contava com uma organização administrativa e socioeconômica similar ao restante das minas. Em suma, a sua ocupação desviou-se dos pressupostos da política metropolitana para as regiões mineradorasxi. Assim, podemos compreender a representação negativa consolidada por Martinho de Mendonça: ali faltavam a ordem, o respeito às leis, e a sujeição à justiça real. Era a terra dos régulos que só reconheciam a força.

Os motivos do motim de 1736 relacionavam-se com a ampliação da base arrecadadora, em uma região que, até então, vivia ao seu modo e observando apenas os direitos costumeiros, ou seja, a única contribuição que se pagava à Coroa era o dízimoxii, destinado à manutenção da Igreja, segundo as normas do Padroado. Os habitantes do sertão consideravam-se isentos do quinto, por não estarem ligados diretamente às atividades de mineração. Ao chegar a ordem para cadastrar os escravos visando a capitação, eles não concordaram. Porém, nas instruções de Martinho de Mendonça estava explícito que deveriam ser registrados todos os escravos, ligados à mineração ou não. A capitação serviria ainda para a ordenação das populações, propiciando a sua total inclusão na administração real.

Trecho do trabalho: Uma rede de potentados: o motim de 1736 nos sertões das Minas Gerais
Profª. Irenilda Cavalcanti

Próxima matéria: Os amotinados de Brejo Salgado, 1736.
Artigo Anterior: Os personagens e o ambiente de Minas em 1736.

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