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Harmonia em Carmo da Cachoeira: vozes, piano e a ideia de comunidade


No próximo dia 28 de novembro, às 19 horas no Clube Tabajara, a Câmara Municipal de Carmo da Cachoeira prestará homenagem a Leonor Rizzi, por proposta da vereadora Maria Beatriz Reis Mendes (Bia). É um reconhecimento merecido a quem, por anos, estimulou a cultura local, valorizou pessoas comuns e defendeu com convicção que arte, educação e fé são alicerces de uma vida comunitária saudável. Nada simboliza melhor esse legado do que o recital que, em 17 de dezembro de 2007, silenciosamente transformou a noite cachoeirense na Igreja Nossa Senhora do Carmo.

O recital e o silêncio que fala

Durante 60 minutos, um público inteiro se manteve em atenção rara. Nem as crianças interromperam a escuta; o silêncio parecia parte da partitura. No alto do altar, duas andorinhas pousadas junto à cruz compunham uma imagem que Evando Pazini registrou em vídeo e que muitos guardam na memória: música, arquitetura e natureza respirando no mesmo compasso. Ao fim, vieram as perguntas espontâneas: “Por que acabou?” “Por que apenas uma hora?”

Três artistas, uma cidade

No piano, Francis Vilela, cachoeirense, bacharel em Música pela UFMG e orientado no mestrado por Eldah Drummond e Miguel Rosselini, ofereceu à plateia não só interpretação, mas contexto e escuta guiada. Ele mantém profunda gratidão à professora Cida Vale, do Conservatório de Varginha, e já cedo aprendeu, com família, amigos e comunidade, a transformar inquietação em disciplina criativa. De uma infância marcada por hiperatividade, saiu o músico maduro que, no palco, contagia com presença plena. Há testemunhos desse percurso: Lino Marcos recorda o Trio DORÉMI (Francis, Lino e Rodrigo) e a observação de um professor de que “este menino precisava estar engajado em atividades que o levassem a vivenciar momentos de harmonia”. Deu certo.

Ao lado do piano, duas vozes locais, mezzos-sopranos que cresceram dentro e para a comunidade:

Maisa Nascimento, artista cachoeirense, aluna de conservatório em Pouso Alegre, onde se aperfeiçoa em piano e canto. Iniciou-se no Conservatório Estadual de Varginha e já realizou diversos trabalhos. É intérprete do Hino de Carmo da Cachoeira, disponível em CD, e manifesta profunda gratidão à Vovó Teresa, que a acompanha nesse hino. Agradece, ainda, a Fernanda Ohara, profissional reconhecida no Sul de Minas, por apoio decisivo.

Larissa Amaral Sanches da Cunha, que estudou piano por seis anos com o professor Francis e seguiu canto e violino nos conservatórios de Três Pontas e Varginha. Participou de movimentos corais em Varginha e em Carmo da Cachoeira, além de bandas. Moradora do município há dezesseis anos, ela agradece profundamente a Francis pela formação musical e cultural ao longo desse caminho, do incentivo inicial aos projetos que hoje despontam.

O programa percorreu séculos: do Prelúdio para órgão em sol menor de J. S. Bach (arr. Siloti) à linhagem barroca que remete a Scarlatti, articulando repertório e história. Foi uma pequena aula pública sobre como a música atravessa épocas e continua dizendo algo essencial ao presente.

Harmonia, tensão, criatividade

Naquela noite, muito se falou sem discursos. A música mostrou que a tensão entre o que somos e o que buscamos é motor de criatividade e virtude. Ideias que Dona Leonor apreciava: a ciência que analisa, a arte que sintetiza; o impulso do humano para equilibrar contrários; a viagem do “retorno do Filho Pródigo”, para usar a imagem bíblica que ela gostava de convocar. O recital não negou a desarmonia do mundo; ofereceu-lhe resposta: contemplação, trabalho paciente e comunhão.

O que fica

Ficam os nomes e as obras. Ficam o piano de Francis, as vozes de Maisa e Larissa, a lembrança de uma comunidade inteira respirando junto. Fica, sobretudo, a pedagogia silenciosa que Leonor sempre praticou: identificar talentos, criar espaços, aproximar famílias, escolas, igrejas, governo e cidadãos. Se a pergunta “por que acabou?” ainda ecoa, a resposta prática é continuar: apoiar recitais, formar plateias, gravar, difundir, ensinar. A cultura de Carmo da Cachoeira não é ornamento; é projeto de cidade.

No dia 28 de novembro, quando o plenário anunciar o nome de Leonor Rizzi, não se estará apenas recordando uma pessoa querida. Estará se reafirmando um método: valorizar gente, reconhecer trajetórias e abrir caminho para que jovens como Maisa e Larissa, e músicos como Francis, sigam erguendo, nota a nota, uma harmonia possível.

Destaque — Reiteramos: o álbum “Hino de São Pedro de Rates” está no Spotify, com diversas obras e participação de artistas locais. É um bom ponto de partida para quem deseja ouvir o que a comunidade tem produzido e preservar essa memória sonora.

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