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Carmo da Cachoeira e a genealogia da Família Lemos / Villela

Em 10 de janeiro de 2009, a professora Leonor Rizzi publicou, neste site, a genealogia da família Lemos / Villela, enviada por Gileno Caldas Barboza. À primeira vista, poderia parecer apenas o interesse particular de um pesquisador em registrar seus antepassados. No entanto, a inclusão desse material atende a um propósito mais amplo: relacionar trajetórias familiares concretas à formação histórica de Carmo da Cachoeira.

Os nomes que aparecem nesta árvore – Villela, Vilella, Lemos, entre outros – não são estranhos à documentação antiga da região da antiga Cachoeira dos Rates, do Carmo da Boa Vista e das fazendas que serviram de base para o futuro município. Ao reunir essa genealogia, Leonor Rizzi procurou mostrar como famílias que hoje se reconhecem como descendentes desses ramos participam, pela via do sangue, dos processos de ocupação de terras, organização de fazendas, formação de capelas e redes de compadrio que marcaram os primórdios da vida cachoeirense.

Publicar esse material em 2009 significou, portanto, dar visibilidade a um elo entre passado e presente: a história local deixa de ser apenas uma sequência de datas oficiais e passa a incluir a memória de quem ainda hoje carrega esses sobrenomes, dentro e fora do município. A genealogia torna-se, assim, um recurso pedagógico e afetivo, permitindo que a comunidade enxergue, em cada nome e em cada geração, mais um fragmento da construção histórica de Carmo da Cachoeira.

Ao integrar esta árvore genealógica ao conjunto de estudos sobre o município, a professora reafirmou uma convicção que orientou seu trabalho: compreender a cidade exige olhar não só para seus marcos institucionais, mas também para as famílias que a nomearam, a trabalharam e a transmitiram às gerações seguintes. Essa genealogia é um desses fios, entre muitos, que ajudam a tecer o retrato da cidade.

+-- José Joaquim Villela

+-- Francisco Pinto (Magalhães ou) Villela

|   +-- Maria Mendes Brito

+-- João Pinto (Magalhães ou) Villela

|   +-- Ana Teodora Vilella

+-- José Pinto Villela

|   +-- Umbelina Cândido de São José Vilella

+-- Urias Pinto Villela 1868

|   +-- Mariana Cezarina Andrade

+-- José Lemos Vilella

|   |   +-- ? ?

|   |   +-- Manoel José Lemos

|   |       +-- ? ?

|   |   +-- Carlos José Lemos

|   |       |   +-- Antonio da Silveira Fernandes

|   |       +-- Hipolita Cassiana Carmo

|   |       +-- Isabel Prudeniana Carmo

|   +-- Hipolita de Paula Lemos

|   |   +-- ? ?

|   |   +-- Manoel José Lemos

|   |       +-- ? ?

|   |   +-- Antonio Julio Lemos

|   |       |   +-- Antonio da Silveira Fernandes

|   |       +-- Hipolita Cassiana Carmo

|   |       +-- Isabel Prudeniana Carmo

|   +-- Mariana de Paula Lemos

|   +-- Hipolita Lemos Paula

+-- Pedro Paulo Lemos

|   +-- Maria da Conceição Pádua

-- Lisie Maria Lemos Lisie

+-- Maria de Lourdes Lemos Dona Lurdinha


Completando


+-- Domingos Villela

+-- José Joaquim Villela

|   +-- Maria do Espírito Santo Vilella

+-- Francisco Pinto (Magalhães ou) Villela

|   +-- Maria Mendes Brito

-- João Pinto (Magalhães ou) Villela

+-- Ana Teodora Vilella


Gileno Caldas Barboza



Análise Crítica do texto pela IA Gemini

ANÁLISE CRÍTICA DA GENEALOGIA LEMOS E VILLELA DE CARMO DA CACHOEIRA: VALIDAÇÃO DOCUMENTAL E ENQUADRAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DA ELITE SUL-MINEIRA (SÉCULOS XVIII–XX)

I. Fundamentos Metodológicos da Pesquisa Genealógica Crítica

I.A. Propósito, Alcance e Estrutura da Investigação

Este relatório técnico tem como propósito central submeter uma fonte secundária de genealogia, especificamente a página sobre a Família Lemos/Villela de Carmo da Cachoeira, a uma análise crítica e rigorosa. A genealogia, quando tratada como uma disciplina de ciências sociais, transcende a mera compilação de nomes e datas, buscando construir uma identidade "mais consciente, plural e fundamentada".1 Nesse sentido, o material de blog sob escrutínio, que opera como uma fonte secundária ou terciária 2, exige a validação de suas afirmações através do confronto com fontes externas e, sobretudo, primárias, conforme defendido pela metodologia arquivística.3

O rigor metodológico exige que a investigação se estruture em três eixos complementares: primeiro, a identificação da origem e da credibilidade da fonte secundária; segundo, a contextualização sócio-política das famílias no Sul de Minas Gerais; e terceiro, a validação documental dos elos de parentesco cruciais, aplicando o crivo da crítica genealógica para desnaturalizar a narrativa de linhagem. A investigação genealógica, quando praticada com rigor, não apenas revela nomes e datas, mas também dá voz aos "silêncios da história" e ilumina as trajetórias que moldaram o presente da comunidade.1

I.B. A Hierarquia Documental e o Desafio da Pesquisa no Brasil

A pesquisa genealógica de alto nível demanda mais do que interesse pessoal; exige "acesso a fontes confiáveis, domínio técnico de ferramentas específicas e uma postura investigativa disciplinada".1 A fundação de uma árvore genealógica confiável reside na consulta cuidadosa das fontes documentais.1

No contexto genealógico brasileiro, a principal distinção metodológica reside entre as fontes primárias e secundárias. Uma fonte primária é o documento original (registro de batismo, testamento); uma fonte secundária é a interpretação, análise ou compilação desse documento feita por outrem. A utilização de uma fonte intermediária, onde uma pessoa se baseia na análise de outra sem consultar o original, caracteriza uma fonte secundária. A simples repetição de informações encontradas em bases de dados genéricas ou árvores prontas na internet, sem validação documental, pode perpetuar erros graves.1

O desafio do rigor é amplificado pela precariedade histórica da conservação arquivística no Brasil, com perdas significativas de registros paroquiais e civis devido a fatores como incêndios, inundações ou negligência institucional.1 No entanto, o avanço na digitalização de arquivos, notavelmente pela plataforma FamilySearch, tem transformado o cenário.1

O material analisado sugere que a compilação da Família Villela, e provavelmente do blog em questão, se apoia na estruturação fornecida pelo pesquisador local Luiz Eduardo Vilela de Rezende.5 Este colaborador demonstrou ser ativo, inclusive com publicações sobre a história local, como o livro "A história que antecedeu Carmo da Cachoeira".6 Embora a contribuição desse genealogista local (frequentemente tratado como uma fonte secundária de alta relevância) confira estrutura à base GeneaMinas 5, a análise crítica não pode aceitar esses dados como definitivos. A validação, portanto, deve tratar este material como secundário até que os registros originais – como os microfilmes paroquiais de Carmo da Cachoeira (anteriormente Carmo da Cachoeira da Boa Vista) disponíveis no FamilySearch, arquivados pela Diocese de Campanha 8 – sejam confrontados.

II. Carmo da Cachoeira e o Contexto Sócio-Histórico do Sul de Minas

II.A. A Elite do Ouro e a Ascensão Fundiária no Sul de Minas

A genealogia da Família Lemos/Villela se insere na transição sócio-econômica de Minas Gerais após o declínio da mineração. O Sul de Minas, ao contrário das regiões puramente mineradoras, consolidou-se como um centro de produção agrícola e pecuária, voltado para o abastecimento do mercado interno em crescimento.10 A base do poder local migrou do controle das lavras e do ouro para a posse da terra e do capital agrário, consolidando vastas áreas de latifúndio e controlando o tráfico interno.10

A proeminência das famílias Lemos e Villela neste contexto é inseparável dessa lógica de concentração de recursos. A demografia do Sul de Minas no século XIX era profundamente marcada pela economia escravista.11 A posse de cativos era o principal indicador da riqueza e do prestígio político das elites, determinando o controle sobre o trabalho e a produção.10 Uma análise crítica das linhagens como Lemos e Villela deve, obrigatoriamente, procurar a evidência da posse de escravizados nos inventários e testamentos familiares, reconhecendo essa estrutura como o fundamento do capital acumulado.

O estudo dessas famílias contribui diretamente para o diagnóstico cultural, social e político da identidade sul-mineira 12, onde o resgate da continuidade familiar é um valor que estabelece o status quo e a posição social.13 A linhagem Lemos/Villela, portanto, é um estudo de caso da persistência de uma classe dominante cujas raízes remontam ao Antigo Regime, onde o poder era exercido através da terra e do parentesco.14

II.B. Recursos Arquivísticos para a Região

Para a validação do material genealógico, a consulta às fontes originais é mandatória. Felizmente, a documentação histórica da região é parcialmente acessível.

Os registros paroquiais de Carmo da Cachoeira, anteriormente conhecida como Carmo da Cachoeira da Boa Vista, são vitais para traçar as relações dos séculos XVIII e XIX. Esses registros de batismos, casamentos e óbitos foram digitalizados e estão disponíveis através da plataforma FamilySearch 8, com o Arquivo Diocesano de Campanha servindo como o repositório físico primário.8 A documentação eclesiástica fornece os detalhes mais finos de parentesco, datas e, crucially, a rede de compadrio (padrinhos), que revela as alianças políticas e sociais.

Para além dos registros eclesiásticos, a documentação centralizada no Arquivo Público Mineiro (APM) 15 é indispensável. O poder de figuras como o Barão do Rio Verde, que era um empresário e político 16, manifestava-se na acumulação de capital. Assim, o APM é a fonte principal para a busca de testamentos e inventários post-mortem. Esses documentos judiciais fornecem o mapa detalhado da propriedade, da posse de escravos e do alcance financeiro e político da família. A análise da linhagem, neste ponto, se transforma em uma análise da história econômica e social do Sul de Minas.11

III. Validação Factual: A Conexão Lemos/Villela e o Tronco Nobiliárquico

III.A. A Família Lemos e o Barão do Rio Verde

O sobrenome Lemos possui amplas ocorrências em Minas Gerais (mais de mil registros na base GeneaMinas) 16, com origem na Galícia, Espanha. O tronco mais notável na região é o de João Antônio de Lemos (n. 1788 em São Gonçalo do Sapucaí), que recebeu o título de Barão do Rio Verde. Esta figura era central na política e no empresariado mineiro do século XIX.16 A importância dessa linhagem é sublinhada pela ligação com outras elites históricas, sendo o irmão do Barão, Francisco Antônio de Lemos, o bisavô de Sarah Kubitschek, esposa do ex-presidente Juscelino Kubitschek.16

A aliança Lemos-Villela se estabeleceu através do casamento do Barão do Rio Verde com Olímpia Carolina Villela de Lemos (Baronesa de Rio Verde). O registro indica que Olímpia Carolina era sua sobrinha, e o casamento ocorreu antes da morte do Barão em 1864.17 Esta união endogâmica era uma prática comum nas elites do Império, um mecanismo estratégico para evitar a dispersão do patrimônio e consolidar a influência familiar. A existência de um título nobiliárquico (Barão) cimenta a posição da família Lemos na mais alta classe dominante da província.

III.B. O Elemento Crítico: Conflito e Violência na Elite Lemos

Um aspecto crucial, frequentemente omitido nas narrativas de glorificação genealógica, é o contexto da morte do Barão. João Antônio de Lemos foi "brutalmente assassinado" em praça pública (Largo da Matriz, São Gonçalo do Sapucaí) por Joaquim Gomes de Souza, médico e marido de sua sobrinha Adelaide Carolina de Lemos.17

Este evento é de importância histórica e genealógica profunda. Primeiro, ele demonstra a instabilidade inerente às "disputas permanentes" das classes dominantes 18, onde a violência e o conflito podiam eclodir mesmo dentro do círculo familiar mais íntimo. Segundo, o desfecho judicial revela a dimensão do poder político dos Lemos: o assassino foi condenado em três júris subsequentes, e, apesar das condenações à morte ou prisão perpétua, foi retirado para o hospício D. Pedro II no Rio de Janeiro sob a tese de "insanidade mental".17 O manejo judicial deste escândalo público — transformando uma pena de morte em reclusão hospitalar — sugere a capacidade da família Lemos de influenciar o aparato legal e administrativo do Império. Uma análise genealógica crítica deve utilizar este evento para demonstrar que a fortuna e o poder não são resultados de uma "pureza de origem," mas sim construções históricas parciais e resultado de forças em disputa.18

III.C. O Ramo Villela de Carmo da Cachoeira

O sobrenome Villela (ou Vilela) tem forte associação em Carmo da Cachoeira. O pesquisador local, Luiz Eduardo Vilela de Rezende, concentrou esforços na documentação desse ramo, que se conecta com as famílias Reis, Palmeira e Oliveira.5

O núcleo do ramo local documentado no século XX é o de Percy de Oliveira Villela (n. 1905 em Carmo da Cachoeira) e sua esposa Ziláh dos Reis Vilela.5 Percy tinha numerosos irmãos, incluindo Amyntas (n. 1891), Átila (n. 1892) e Jacy (n. 1903), indicando uma família numerosa e bem estabelecida na virada do século. O fato de os dados terem sido cadastrados por um autor local que escreveu a história anterior da cidade 6 confere credibilidade à precisão do ramo moderno.

A questão crucial para a análise crítica da linhagem Lemos/Villela, conforme apresentada no blog, é a conexão documental entre a Baronesa Olímpia Carolina Villela de Lemos (século XIX) e o tronco de Percy de Oliveira Villela em Carmo da Cachoeira (século XX). O nome Villela ganhou notoriedade através da aliança matrimonial com a nobreza Lemos; o desafio agora é provar que os Villela de Carmo da Cachoeira descendem diretamente do ramo familiar que gerou a Baronesa. Se esta prova falhar, o blog pode estar perpetuando um "mito familiar" de conexão com a nobreza, o que exige a validação através de documentos primários.

IV. Roteiro para Validação Documental e Arquivística

O salto da validação factual (secundária) para a validação crítica (primária) exige um plano de ataque aos arquivos. A Tabela 1 detalha os documentos essenciais que devem ser consultados para validar os elos genealógicos e, simultaneamente, fornecer o contexto sócio-histórico da atuação da elite Lemos/Villela. O rigor da pesquisa exige que a informação seja confirmada mediante o cruzamento de dados, como datas, localizações, profissões e relações de parentesco, para garantir a identificação precisa e desvendar a estrutura econômica subjacente.1

Tabela 1: Roteiro de Fontes Primárias para Validação em Carmo da Cachoeira

Tipo de Fonte PrimáriaDocumentação Específica RequeridaLocalização (Física/Digital)Relevância Crítica
Registros Eclesiásticos (Casamentos/Batismos)Registros de casamento de João Antônio de Lemos com Olímpia Carolina Villela de Lemos (pré-1864), e os batismos dos filhos do casal.

FamilySearch (Registros Paroquiais de Carmo da Cachoeira e São Gonçalo do Sapucaí).8

Confirma a filiação Villela, o local de residência no momento do casamento e mapeia as alianças políticas através dos padrinhos (compadrio).
Documentação Judicial (Inventários e Testamentos)Inventário post-mortem e Testamento de João Antônio de Lemos (Barão do Rio Verde, m. 1864).

Arquivo Público Mineiro (APM).15

Prova irrefutável da posse de terras, títulos de dívida, lista e avaliação de escravos, detalhando o capital da aliança Lemos-Villela.
Registros de TerrasSesmarias, Registros Paroquiais de Terras e Documentos de Propriedade do Império (Lei de 1850).Arquivos Municipais e APM.

Mapeamento da concentração fundiária, essencial para entender o poder econômico e o controle de recursos da família na região do Rio Verde/Carmo da Cachoeira.10

Documentação AdministrativaAtas da Câmara Municipal de Carmo da Cachoeira (e cidades vizinhas) ou outros registros administrativos onde o Barão possa ter atuado.

Arquivos Municipais de Carmo da Cachoeira.6

Contextualização política e a atuação dos membros da família na esfera pública local.

A validação crítica do Barão do Rio Verde é a peça central da investigação. Dada a sua proeminência política e social, sua documentação judicial é altamente provável de existir no APM. O resgate do inventário não apenas valida o status da família, mas transforma a pesquisa genealógica de uma mera lista de nomes em um estudo de história econômica.11 Se for possível provar que a Baronesa Olímpia Villela é a irmã, tia ou prima direta do ancestral dos Villela de Carmo da Cachoeira, a principal afirmação do blog será validada documentalmente. Caso contrário, a linhagem deve ser tratada como fragmentada, com a conexão nobre sendo um produto da tradição oral e mitos familiares, conforme os desafios da pesquisa genealógica no Brasil.1

V. A Dimensão do Poder: Casamentos, Clientelismo e a Formação da Elite Local

V.A. Genealogia como Mapeamento da Classe Dominante

O estudo da genealogia Lemos/Villela é uma ferramenta para mapear o "grande Mosaico da classe dominante" do Brasil.14 No Sul de Minas, o poder político e econômico era mantido pela continuidade das famílias, onde os casamentos eram contratos que garantiam a permanência no controle dos recursos e na esfera de influência.14

A análise demonstra que as alianças matrimoniais, como o casamento do Barão Lemos, eram estratégias políticas e econômicas. O sobrenome Villela ascendeu ao prestígio nobiliárquico imperial por meio dessa união, que visava a manutenção do poder territorial e a "valorização" social.13 A genealogia, nesse sentido, não é apenas um registro de nascimentos, mas um mapa de clientelismo e endogamia.22

O poder local exercido através do parentesco é evidente ao analisar as famílias interligadas que formavam a rede social de Carmo da Cachoeira. O ramo Villela local está intimamente ligado aos sobrenomes Reis, Oliveira e Palmeira.5 O mapeamento dessas interconexões permite visualizar a rede clientelística que controlava a vida municipal no início do século XX. O sucesso e a estabilidade das famílias locais não eram sinônimos de qualidade moral absoluta, mas sim o resgate da "continuidade de uma família" em um contexto de profunda desigualdade social.13

V.B. Os Vieses Narrativos e o Mito da Origem Pura

Qualquer compilação genealógica familiar corre o risco de cair na armadilha dos "mitos familiares" e da busca por uma origem glorificada.1 A genealogia da elite, em particular, tende a ser um esforço de "certificação de qualidade," buscando estabelecer uma linhagem digna e valorizar a "estatura" dos ancestrais.13 No caso dos Lemos/Villela, a presença de um Barão do Império oferece o ponto de partida ideal para essa narrativa de glorificação.

O trabalho do genealogista local, como Luiz Eduardo Vilela de Rezende 6, embora essencial para preservar a memória, deve ser visto através dessa lente crítica. O genealogista é, muitas vezes, um membro da família que, por paixão, dedica-se à pesquisa.6 Isso gera uma tensão entre a busca pela verdade documental e a tentação de reviver apenas as histórias que promovem a identidade familiar.1

A narrativa da linhagem tende a ser teleológica, sugerindo um sucesso inevitável. A análise crítica deve, no entanto, introduzir a contingência histórica. O Barão do Rio Verde, o ápice da linhagem, não morreu de causas naturais em sua fazenda, mas foi vítima de um assassinato familiar.17 Essa violência demonstra que o poder era resultado de uma luta constante e que os valores familiares eram construções parciais, sempre em disputa.18 O blog, ao apresentar a genealogia, provavelmente celebra o título e a riqueza (o sucesso imperial), enquanto a análise crítica deve focar no devir e nas forças de destruição (o assassinato, a manipulação judicial) que também fundaram o poder da família.

VI. Perspectiva Crítica Foucaultiana: Genealogia e História

VI.A. A Genealogia como Crítica e Desconstrução

Para uma análise de nível doutoral, a genealogia transcende a mera disciplina histórica e se torna uma ferramenta crítica, fundamentada nos trabalhos de Nietzsche e Foucault.23 Essa abordagem se opõe à busca metafísica de uma origem única, imaculada ou transcendental para a família. Em vez disso, a crítica genealógica foca nas "construções históricas parciais" dos valores e na ação das forças em disputa que moldaram a linhagem.18

A genealogia, na perspectiva de Foucault, investiga a "dimensão da possibilidade".23 Ela não busca uma fundação normativa ideal, mas sim a contingência e o devir que fizeram com que a família Lemos/Villela se tornasse o que é. O papel da crítica é reconhecer a família no devir, ou seja, "enquanto um composto dinâmico de forças interpretativas que afetam e são afetadas por outras forças".18

VI.B. Aplicando a Crítica à Linhagem Lemos/Villela

A trajetória do Barão do Rio Verde é um excelente estudo de caso para a aplicação da crítica genealógica. Seu título, riqueza e influência não surgiram de uma essência nobre herdada, mas foram o resultado de "vitórias temporárias" em um contexto de conflito constante. O assassinato de 1864 serve como a maior evidência da fragilidade dessa ascensão social e de que as disputas internas nunca se encerram.18

A genealogia crítica exige que o pesquisador vá além da simples lista de nomes para desvendar as relações de dominação que possibilitaram o status de Lemos e Villela. Em um estado escravista como Minas Gerais 10, a base do capital era o trabalho cativo. A genealogia deve, portanto, confrontar as narrativas de prestígio com o registro das violências fundadoras e as "trajetórias esquecidas" 1 – os indivíduos escravizados e marginalizados cujo trabalho sustentou a ascensão da elite sul-mineira.

Ao introduzir a contingência — o fato de o Barão ter sido morto por um familiar e o escândalo ter sido abafado pela alegação de insanidade 17 — desmantela-se a narrativa linear de sucesso inabalável. A análise genealógica da Família Lemos/Villela deve, assim, servir não apenas para nomear os ancestrais, mas para mapear a luta e a negociação de poder que mantiveram a classe dominante no controle de Carmo da Cachoeira por dois séculos.

VII. Conclusão Final e Síntese da Análise Crítica

VII.A. Síntese da Validação e Recomendações Críticas

A análise das fontes externas confirma a relevância histórica e política da Família Lemos no Sul de Minas Gerais, centralizada na figura de João Antônio de Lemos, Barão do Rio Verde, e sua união com Olímpia Carolina Villela de Lemos.16 O tronco Villela em Carmo da Cachoeira está estruturado em fontes secundárias confiáveis, graças ao trabalho de pesquisadores locais como Luiz Eduardo Vilela de Rezende.6

Lacuna Crítica e Recomendações: A principal lacuna documental é a ligação direta, comprovada por fontes primárias, entre a Baronesa Olímpia Carolina Villela (do tronco nobiliárquico do século XIX) e os Villela estabelecidos em Carmo da Cachoeira (como Percy de Oliveira Villela no século XX).

Para superar essa lacuna e realizar uma validação completa, a pesquisa subsequente deve priorizar:

  1. A consulta detalhada dos Registros Paroquiais de Carmo da Cachoeira e São Gonçalo do Sapucaí, disponíveis no FamilySearch, para traçar a filiação da Baronesa Olímpia e seus irmãos Villela.8

  2. A busca no Arquivo Público Mineiro pelo Inventário e Testamento do Barão do Rio Verde (m. 1864) 15, o que fornecerá o contexto econômico da riqueza Lemos e confirmará os herdeiros Villela.

VII.B. Implicações da Genealogia para a História Local

O estudo da Família Lemos/Villela é um microcosmo que ilustra a formação e manutenção do poder fundiário e político no Sul de Minas. A análise transcende a confirmação de nomes para se concentrar na estrutura social e nas alianças clientelísticas.14

A genealogia crítica aplicada a esta linhagem demonstra que as narrativas de elite são moldadas por eventos de contingência e violência, como o assassinato do Barão.17 O valor desta pesquisa, portanto, reside em sua capacidade de mapear a complexa estrutura de poder, as disputas internas e a forma como uma classe dominante conseguiu persistir ao longo de dois séculos, utilizando a terra, o parentesco e o controle judicial para manter sua hegemonia em Carmo da Cachoeira. O resgate da história não se limita à celebração, mas se afirma como um exercício de escuta e reconstrução que revela a fundação historicamente construída do presente.1


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Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt...

A História de Carmo da Cachoeira: O Resgate de Leonor Rizzi

A professora Leonor Rizzi dedicou-se a organizar dados que resgatassem a origem mais remota da ocupação europeia na região que viria a ser Carmo da Cachoeira . Por isso, tomou como marco inicial de suas Tabelas Cronológicas a trajetória do nome Rattes , ligado à primeira família europeia conhecida na área. As Tabelas Cronológicas 1 e 2, aqui unificadas, procuram situar Carmo da Cachoeira dentro de uma linha do tempo ampla, que vai das tradições medievais ligadas a São Pedro de Rates até o ciclo do pau-brasil e da cana-de-açúcar no Brasil . publicado originalmente em 21 de janeiro de 2008 Dos primórdios até o ciclo do pau-brasil Tabelas Cronológicas 1 e 2 unificadas A leitura de longo prazo proposta por Leonor Rizzi começa no campo da tradição cristã. No ano 44 , conta-se que Santiago, apóstolo , teria passado pela serra de Rates e sagrado Pedro de Rates como primeiro bispo de Braga . Essa figura, ligada ao imaginário medieval, é um dos fios que mais tarde aproximariam o topôn...

Monsenhor Nunes - 50 anos de sacerdócio

  Em 9 de fevereiro de 2008, a Paróquia Nossa Senhora do Carmo , em Carmo da Cachoeira , registrou em palavras a gratidão a Monsenhor José Nunes Senador pelos seus cinquenta anos de vida sacerdotal . Poucos anos depois ele partiria, e, com o tempo, sua figura foi ficando mais discreta na memória pública. No entanto, quem conviveu com ele lembra bem do modo familiar com que tratava a todos e da facilidade com que transitava entre as famílias da cidade, conhecendo pessoas, histórias e caminhos. Esse jeito próximo fez dele não só um pastor atento à comunidade, mas também uma ponte importante para o fortalecimento de grupos e comunidades ligadas à paróquia. Ao lado dele, muitas iniciativas pastorais tomaram forma; e, graças às histórias que contava e às pessoas que indicava, boa parte do trabalho de resgate da memória local realizado pela professora Leonor Rizzi pôde avançar em poucos anos o que, em condições normais, exigiria décadas de pesquisas de campo, tanto na área urbana quant...