Carmo da Cachoeira: consolidação de registros entre sesmarias, capelas e caminhos
Quando se mudou para Carmo da Cachoeira, a professora Leonor Rizzi deparou-se com um incômodo persistente: nem mesmo a população local sabia explicar com segurança a origem do nome “Rattes”. Uns diziam que vinha de ratos, outros associavam a alguma cachoeira, e, nesse jogo de versões, a memória da família que primeiro ocupou a região foi sendo apagada em benefício das oligarquias que assumiram as sesmarias mais tarde. A organização desta tabela cronológica nasce justamente do propósito de resgatar a importância desses pioneiros, esclarecer a verdadeira origem do nome e desmistificar as explicações fantasiosas que se acumularam ao longo do tempo.
Dando continuidade ao trabalho iniciado em 25 de janeiro de 2008, a professora Leonor Rizzi reuniu, no bloco que intitulou “Tabela 7 – de 1770 até a Inconfidência Mineira”, um conjunto de registros que mostra como se estruturavam o território, as famílias e a vida religiosa na região do sul de Minas e áreas vizinhas. Ao destacar esses acontecimentos, sua leitura sugere que a formação de Carmo da Cachoeira começa em momento anterior à data geralmente aceita como fundação oficial. O que se apresenta a seguir reorganiza esse material em forma de narrativa, preservando cada um dos dados por ela levantados.
publicado originalmente em 26 de janeiro de 2008
1770 – Capelas, sesmarias e os primeiros Rates
Em 23 de março de 1770, o Padre Francisco Alves Torres recebeu provisão para a capela de São Tomé, situada na serra das Letras, reforçando a presença religiosa na região.
Poucos meses depois, em 18 de julho, foi concedida sesmaria na paragem do Servo e em Barra do Bom Caldo, registro identificado na referência SC. 172, p. 46, Seção Colonial, do Arquivo Público Mineiro.
Nesse mesmo contexto, o conde de Valadares informou, em carta, que havia feito várias pessoas entrarem em Campo Grande e as instruíra para que aí estabelecessem uma igreja, orientando a ocupação do território sob forte marca eclesial.
É também de 1770 que datam os primeiros registros da família Rates na região de Carmo da Cachoeira, indicando sua inserção precoce na história local.
O ano registra ainda uma série de concessões de sesmaria:
-
Mathias Gonçalves Moinho recebeu sesmaria na Vargem Grande do Servo e junto ao ribeirão Pirapitinga.
-
João Marques Padilha obteve sesmaria no ribeirão de Perepitinga, vizinho da serra Branca.
-
O sacerdote Manoel da Silva de Jesus foi contemplado com sesmaria na paragem do Servo e em Barra do Bom Caldo.
-
Manoel Ferreira Guimarães recebeu sesmaria em Duas Barras, confrontando com terras de Luiz Corrêa Lourenço.
Por fim, houve provisão para ampliar a capela existente sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda, na jurisdição de Nossa Senhora das Lavras das Carrancas, sinalizando o crescimento da comunidade em torno da devoção mariana.
1771 – Batismos, fronteiras indefinidas e a intendência de diamantes
Em 20 de junho de 1771, foi batizado, na ermida do Campo Belo, pelo Padre Bento Ferreira, Manoel, filho de Manoel Antônio Rates e Maria da Costa, moradores do sítio Cachoeira. O registro aproxima novamente a família Rates da paisagem de Cachoeira.
Em 5 de julho, Francisco Xavier da Cruz recebeu sesmaria cujas divisas eram: pela nascente, com Francisco Pimenta; ao norte, com Amaro Ferreira de Araújo; ao sul, com Gaspar José de Abreu, terras que possuía por compra feita a Antônio Carneiro dezesseis anos antes.
Na mesma época, João Costa Manso era reconhecido como sesmeiro mineiro, vizinho de Ignácio Caetano Vieira de Carvalho, em uma região onde os limites entre Minas e São Paulo eram tênues e imprecisos, o que alimentava disputas de jurisdição.
Os documentos do período na região mencionam ainda um conjunto expressivo de sobrenomes que se tornariam recorrentes: Terra, do Valle, Vale Ribeiro, Ramos, Barreiro, Ribeiro da Silva, Valim, Moraes, Siqueira, Costa, Galante, Toledo, Alves Pedrosa, entre muitos outros.
Além da sesmaria já citada, Francisco Xavier da Cruz recebeu outra sesmaria nas paragens denominadas Catandubas, área correspondente à atual Varginha. Também Amaro Pereira de Araújo foi beneficiado com sesmaria no período.
No plano mais amplo da administração colonial, registra-se o início do funcionamento da Intendência de Diamantes no Brasil, órgão responsável por controlar a exploração e o comércio dessa riqueza estratégica.
1772 – Disputa no sertão do rio Pardo
Em 1772, nasceu Joaquim José dos Reis, identificado como sesmeiro, o que mostra a continuidade da ocupação mediante concessões de terras.
O sertão do rio Pardo encontrava-se em disputa: “geralistas” buscavam tomar posse de descobertos minerários que estavam sob a posse de paulistas de Mogi-Guaçu, revelando tensões entre grupos de diferentes origens e interesses.
1773 – Enterro em Campo Belo e fechamento de caminhos
Em 29 de janeiro de 1773, foi enterrada no cemitério do Campo Belo Josefa Maria da Rocha Antão, casada com José Manso, registro que associa a família Manso ao núcleo de Campo Belo.
No mesmo ano, a Coroa determinou que fosse proibido abrir novos caminhos para Minas Gerais, numa tentativa de controlar melhor a circulação de pessoas, mercadorias e, sobretudo, do ouro.
1774 – Centralização da administração colonial
Em 1774, o marquês de Pombal promoveu a unificação da administração do Brasil, estabelecendo capital única no Rio de Janeiro. A medida centralizava o controle político em torno da região mineradora e marítima mais estratégica.
1775 – Regimento de Cavalaria, inventários e o Registro do Ouro
No dia 25 de julho de 1775, ocorreu a instalação do Regimento de Cavalaria de Minas Gerais, reforçando a presença militar na capitania.
Em 25 de dezembro, Manoel de Souza Dinis apareceu como procurador de Luís José de Oliveira no inventário de Ignácia Ribeira do Evangelho, evidenciando redes de representação jurídica e patrimonial.
Nesse mesmo contexto, foi batizado Félix, filho de Rita, solteira, filha de Luís Pimenta. O batismo ocorreu em casa de Manoel Antônio Rates, no sítio Cachoeira, novamente com a família Rates em posição de destaque.
Ainda em 1775, foi instalada a estrutura de fiscalização conhecida como Registro do Ouro na paragem do Mandu, voltada ao controle da circulação do metal.
1776 – Casamentos, capelas e repressão ao contrabando
Em 16 de junho de 1776, José Joaquim Gomes Branquinho casou-se com Maria Vitória dos Reis. O casal residia na fazenda Boa Vista, na freguesia de Santana das Lavras, e entre seus filhos estava Joaquim Fernandes Ribeiro de Rezende, que se tornaria figura de relevo.
O vigário de Baependi, João Lopes de Matos, registrou em Lavras um ato eclesiástico na capela de São José, conectando as redes paroquiais da região.
Na esfera de controle econômico, o destacamento da Picada de Iorooca foi encarregado de reprimir o contrabando de ouro para o Rio de Janeiro, estando localizado ao sul–sudoeste de Aiuruoca.
A expansão religiosa continuava: o capitão Mateus Luiz Garcia edificou uma capela na fazenda Congonhal, área do que hoje é Nepomuceno, tendo como capelão João Alves Preto.
Por fim, registra-se sesmaria em nome de José Marcelino de Azevedo, na região de Santa Fé.
1777 – Mudanças na monarquia e novas sesmarias
O ano de 1777 marca mudanças no trono português:
-
1777–1786: reinado de Dom Pedro III, no chamado Reino Unido, em Portugal.
-
1777–1792: reinado de Dona Maria I, igualmente referida como do Reino Unido, em Portugal.
Na realidade local, prosseguiam as concessões de terra:
-
Em 1º de agosto, foi concedida sesmaria na paragem do ribeirão das Três Pontes, do outro lado do rio Grande, em nome de Maria Teresa do Carmo.
-
Em 22 de agosto, outra sesmaria na mesma paragem do ribeirão das Três Pontes foi registrada em nome de João da Mota Coelho.
Também nesse ano:
-
Foi batizado o filho do casal Francisco Gomes da Silva e Bárbara Maria da Luz.
-
Pedro Garcia Leal, pai de Januário Garcia, assinou procuração, declarando-se morador de Rio Grande, o que ajuda a situar geograficamente a família.
1778 – Mapas, caminhos e novas concessões
Em 1778, ganha destaque o mapa geográfico de José Joaquim da Rocha. Entre os caminhos que atravessavam a picada de Goiás, havia um que, saindo de Brumado, passava por Oliveira, desviava-se para Candeia e terminava em Piuhí, indicando rotas de penetração e ligação entre diferentes núcleos.
No mesmo ano, foram concedidas:
-
Sesmaria em nome de Manoel Pinto da Fonseca, na freguesia de Santana das Carrancas.
-
Sesmaria em nome de Cipriano Lourenço de Jesus, em Santana das Lavras do Funil, no capão das Abelhas, no caminho de Campanha do Rio Verde.
1779 – Sesmaria em Bom Jardim
Em 1779, há registro de sesmaria em nome de Antônio Gonçalves Penha, na região de Bom Jardim, reforçando o adensamento de propriedades rurais.
1780 – Ocupação de Varginha e morte de Pedro Garcia Leal
O ano de 1780 é marcante para a região que viria a ser Varginha:
-
Surgem os primeiros documentos comprovando a ocupação da região, que já servia, há tempos, como ponto de descanso de tropeiros.
-
A fazenda Boa Vista, situada próxima ao rio Verde, segundo a tradição, já pertenceria ao capitão-mor Manoel dos Reis Silva. Nela viviam famílias como Reis, Rezende, Vilela e Garcia.
-
Nesse mesmo ano, o capitão-mor Manoel dos Reis Silva teria falecido. Diante da falta de condições climáticas para o transporte do corpo, teria sido decidido construir um cemitério na área da propriedade dos Rates.
Ainda em 1780, registrou-se a morte de Pedro Garcia Leal, pai do capitão de ordenanças Januário Garcia Leal, figura ligada às redes de poder local.
1782 – Testamento, nova capela e o sítio do Ingaí
Em 2 de novembro de 1782, o capitão José Vieira de Almeida lavrou testamento determinando:
“ordeno que meu corpo seja sepultado na capela de São José, da minha própria fazenda, da freguesia de Baependi, chamada Favacho”.
Poucos dias depois, em 5 de novembro, foi erigida, no sertão do Jacuí, a primordial capela de São Sebastião, ao redor da qual se formaria o povoado de São Sebastião da Ventania, atual Alpinópolis.
O inventário do capitão José Vieira de Almeida informa ainda que, antes dessa data, ele era morador no sítio do Ingaí, acrescentando outro ponto ao mapa de ocupação da região.
1783 – Ermida de Nossa Senhora do Carmo
Em 1783, há provisão para a ermida de Nossa Senhora do Carmo, localizada na fazenda Prepetinga ou Parapetinga, na comarca do Rio das Mortes, conferida ao Padre José Antônio da Silva Resende. O registro confirma a importância das pequenas capelas rurais como polos de organização social.
1784 – Elevação de vilas e abandono de capelas
Entre 1784 e 1814, sete povoados mais afastados do núcleo minerador central foram elevados à condição de vila, com nítida vocação agropastoril, demonstrando o avanço da fronteira agrícola.
No mesmo período, registra-se a morte do Padre José Ferreira Vila Nova. Com sua ausência, ficaram abandonadas a capela de São Bento e o antigo distrito da Boa Vista, revelando a dependência das comunidades em relação a figuras eclesiásticas específicas.
1785 – Proibição das manufaturas e novas capelas
Em 5 de janeiro de 1785, a rainha Dona Maria I proibiu a atividade industrial no Brasil, com o objetivo explícito de evitar concorrência aos produtos ingleses, medida que manteve a colônia dependente de manufaturas externas.
Ainda em 1785:
-
O barão de Alfenas ergueu a capela de São Tomé, no local que viria a ser a cidade de São Tomé das Letras.
-
Foi erguida uma pequena capela de pau-a-pique na estrada que ligava a vila de Campanha ao sertão das Três Pontas, precisamente no local onde hoje se encontra Varginha, mais um marco da presença religiosa no caminho dos tropeiros.
1787 – Sesmaria em Bom Jardim
Em 1787, aparece registro de sesmaria em nome de João Francisco Junqueira, na fazenda Bom Jardim, reforçando sua inserção entre os grandes proprietários da região.
1788 – Padre Bento e os mapas militares
Em 1788, há provisão para o tenente João Pinto de Magalhães, ampliando a presença de oficiais nas áreas de fronteira.
Um mapa da Capitania de Minas Gerais, hoje parte do acervo histórico do Exército, assinala no território atualmente ocupado pelo município de São Bento Abade a denominação “Padre Bento”, próximo ao rio Verde, indicando também Lavras e Curralinho. O documento comprova a importância cartográfica e militar da região às vésperas da Inconfidência.
Assim, o bloco de 1770 até a Inconfidência, sistematizado por Leonor Rizzi, revela um movimento contínuo de concessão de terras, fundação de capelas, abertura (e fechamento) de caminhos, disputas de fronteira e reorganização política, numa paisagem em que famílias como Rates, Garcia, Reis, Rezende e tantas outras foram tecendo, com seus batismos, casamentos, testamentos e sesmarias, a base da ocupação do sul de Minas.
Análise crítica do artigo pela IA Gemini Research:
Desvendando a História de Carmo da Cachoeira: Fatos, Mitos e a Verdadeira Linha do Tempo da Fundação
Introdução: O Mistério do Ano 1770 e os Três Nascimentos da Cidade
No cerne da identidade de qualquer cidade está sua história de fundação. Para Carmo da Cachoeira, uma data frequentemente citada em fontes não oficiais e na tradição popular — 1770, conforme sugerido pelo artigo de blog que motivou esta análise — apresenta um ponto de partida intrigante. Como pesquisadores da história local, o primeiro passo é levar essa alegação a campo e compará-la com os registros oficiais e documentos históricos disponíveis.
Uma verificação inicial nos dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Isso levanta uma questão crucial: de onde vem a data de 1770? Na pesquisa genealógica e histórica, é comum que datas de fundação de cidades mais antigas e influentes da região sejam "emprestadas" pela tradição oral para povoados mais novos. Municípios próximos, como Lavras, têm suas origens no século XVIII
A ausência da data de 1770 nos registros oficiais não sugere uma falsificação, mas sim uma provável confusão entre "início do povoamento regional" e a "fundação da cidade". A pesquisa documental revela que Carmo da Cachoeira não teve um único momento de fundação, mas sim três momentos cruciais de nascimento, todos ocorrendo muito depois, nos séculos XIX e XX.
Para um leitor médio, a fonte de confusão geralmente reside na diferença entre esses "nascimentos". O que é um povoado, uma freguesia e um município? A tabela a seguir serve como um mapa para entender a verdadeira cronologia da cidade, diferenciando os marcos legais dos marcos populares.
Tabela 1: Os Três "Nascimentos" de Carmo da Cachoeira
| Evento | Data Verificada | O que Significa (em linguagem simples) | Fonte Principal |
| Etapa 1: O Povoado | c. 1845-1847 | O "marco zero". A construção da primeira capela, que atrai moradores para o "Sítio da Cachoeira". | |
| Etapa 2: A Freguesia | 03 de julho de 1857 | O "batismo" legal. A comunidade ganha seu primeiro reconhecimento oficial como distrito ou paróquia. | |
| Etapa 3: O Município | 17 de dezembro de 1938 | A "independência". A cidade é emancipada, ganha autonomia política e pode eleger seu próprio prefeito. | |
| Alegação Não Verificada | 1770 | Data popular (citada no blog), mas sem respaldo nos registros oficiais de fundação da cidade. | Consulta do Usuário |
A Verdadeira Gênese (c. 1840-1850): O "Deserto Desnudo" e os Primeiros Fundadores
O Cenário Original: O "Sítio da Cachoeira"
Para entender a fundação de Carmo da Cachoeira, é preciso primeiro visualizar a região como ela era antes da cidade existir. Baseado em depoimentos de antigos moradores, preservados pela história oficial do município, a área era conhecida pela alcunha de "deserto desnudo".
A paisagem local era dominada por três grandes propriedades rurais, três fazendas que formavam o núcleo da região: a Fazenda Boa Vista, a Fazenda Retiro e a Fazenda Rancho.
Os Protagonistas da Fundação: Rattes e Avelino
A história oficial identifica claramente os pioneiros que transformaram esse "deserto desnudo". Os primeiros habitantes do "sítio da Cachoeira" e, portanto, os fundadores originais do povoado, foram membros da família Rattes.
Juntamente com os Rattes, outra figura de imensa importância emerge: o Tenente-Coronel José Fernandes Avelino, um membro da Guarda Nacional.
Avelino cimentou sua importância ao construir e residir no "velho casarão situado na esquina da Praça do Carmo".
O Catalisador: A Primeira Capela (1845-1847)
O verdadeiro ponto de inflexão, o evento que marca a transição de um conjunto de fazendas privadas para um povoado público, foi a construção da primeira capela. Este marco ocorreu entre 1845 e 1847.
Antes da capela, o poder e a vida social giravam em torno das sedes das fazendas. A capela criou um novo centro gravitacional — um centro público, religioso e social. As pessoas começaram a se mudar para perto da capela, e não mais para perto da casa-grande.
A prova dessa rápida transferência de poder está nos registros eleitorais. Em 1853, o local mais importante da região ainda era a Fazenda Boa Vista, onde, segundo documentos da época, até eleições eram realizadas.
Em menos de uma década, o centro de poder migrou da esfera privada e rural (a fazenda) para a esfera pública e urbana (o povoado). A doação de terras por Rattes e Avelino foi a permissão; a capela de 1845 foi o ímã que iniciou a cidade.
O Primeiro Reconhecimento Legal (1857): O Nascimento da Freguesia
A "Formatura" da Comunidade
Se a construção da capela em 1845 foi o "marco zero", a elevação à categoria de Freguesia foi o "batismo" legal. Nas décadas de 1840 e 1850, o povoado cresceu. A tradição oral, registrada na história oficial, conta que o arraial foi elevado à categoria de freguesia quando já haviam sido construídas 100 casas.
"Freguesia", na estrutura administrativa do Brasil Imperial, era o primeiro degrau de reconhecimento. Significava que a comunidade deixava de ser apenas um "bairro rural" e passava a ser um distrito oficial, com uma paróquia estabelecida e direitos administrativos limitados, embora ainda estivesse subordinada a um município maior.
A Data e a Lei: 03 de Julho de 1857
Para este "nascimento" legal, temos uma data e um documento precisos, graças aos registros preservados no Almanak Sul Mineiro do ano de 1884. Este almanaque, citado em fontes de pesquisa histórica
O Almanak é claro: a Freguesia do Carmo da Cachoeira foi criada pelo artigo primeiro da Lei provincial n. 805, na data de 03 de julho de 1857.
O Contexto Administrativo: A Quem Carmo da Cachoeira Pertencia?
O Almanak de 1884 também esclarece a quem a nova freguesia estava subordinada. Em 1884 (e, por extensão, desde sua criação em 1857), a Freguesia do Carmo da Cachoeira pertencia ao Município de Espírito Santo de Varginha e à Comarca de Três Pontas.
Isso resolve uma aparente contradição encontrada nos registros. A história da prefeitura (baseada em depoimentos antigos) menciona que, na época de sua fundação, a capela era "citada como 'capela de Cachoeira do Carmo no Município de Lavras do Funil'".
Não se trata de um erro, mas de uma progressão. Lavras era a cidade-mãe original daquela vasta região. O povoado, ao surgir nos anos 1840, estava naturalmente na órbita de Lavras do Funil. No entanto, a Lei de 1857 formalizou a identidade da freguesia e transferiu sua subordinação administrativa para Varginha, que crescia rapidamente em importância como um novo polo regional.
Portanto, a Freguesia "nasceu" sob a influência de Lavras, mas foi "batizada" e "registrada" legalmente como um distrito de Varginha. Foi um momento de "desmame" administrativo, definindo sua própria identidade.
Um Retrato da Comunidade (1884): Cidadãos, Água e Progresso
Uma Janela para o Passado: O Almanak Sul Mineiro
O Almanak Sul Mineiro de 1884
Em 1884, Carmo da Cachoeira era uma freguesia que já contava com as 100 casas mencionadas pela tradição, além de algumas para alugar. Possuía um cemitério "em bom estado e fechado". A vida religiosa era centrada na Igreja Matriz, que tinha o patrimônio de duas pequenas capelas adicionais: a do Pretório e a de Santo Antônio.
O Grande Cidadão: Severino Ribeiro de Rezende
Se os fundadores da primeira geração foram os Rattes (pioneiros) e José Fernandes Avelino (benfeitor), a segunda geração de liderança foi personificada por um nome que aparece com destaque tanto no Almanak
Ele não foi um fundador, mas sim um "construtor". Representa a ascensão do cidadão cívico, que investe no desenvolvimento do espaço urbano. A ele são creditadas duas obras fundamentais:
A Matriz: A primeira igreja (a capela de 1845) foi reformada e ampliada entre 1873 e 1875. Severino Ribeiro de Rezende foi o diretor de obras
4 e, segundo o Almanak, foi sua "dedicação e iniciativa" que possibilitou os "reparos notáveis" na reconstrução da matriz. Ele promoveu uma subscrição (arrecadação de fundos) que reuniu uma quantia superior a 14.000$000 (catorze contos de réis).9 A Água: Talvez sua contribuição mais vital para a comunidade tenha sido liderar o projeto de infraestrutura de abastecimento de água.
O Projeto de Água: Um Estudo de Caso de Cooperação Cívica
O Almanak de 1884
O sistema foi resultado de uma parceria:
Os Líderes Cívicos: A subscrição foi promovida por "dignos cidadãos" como Severino Ribeiro de Rezende, Antonio Severiano de Gouveia, João Alves de Gouvêa e João Esteves dos Reis.
O Doador: O "prestimoso fazendeiro" José Esteves dos Reis, que "espontaneamente cedeu" a água de sua propriedade.
O Povo: Que contribuiu financeiramente para a construção do "rego" (canal) que levava a água a todas as casas.
9
Este nível de organização social demonstra um imenso orgulho cívico. Enquanto a primeira geração (Avelino) doou a terra, esta segunda geração (Rezende) estava investindo em infraestrutura e qualidade de vida. Este espírito cívico, já evidente em 1884, é o que pavimentou o caminho para a emancipação 50 anos depois.
Uma Comunidade Surpreendentemente Sofisticada
O retrato pintado pelo Almanak
Educação: Havia duas salas de aula públicas (Instrução Pública), uma mista com 40 alunos (professora Maria Blandina das Dôres) e uma masculina com 20 alunos (professor Augusto de Azevedo Costa). Mais impressionante, havia uma escola particular, o Colégio de São Thomaz de Aquino. Dirigido pelo Vigário, Padre Antônio Joaquim da Fonseca, o colégio ensinava "todos os preparatórios exigidos para a matrícula nos cursos superiores".
9 Isso significa que jovens da freguesia estavam sendo preparados para a universidade, um nível de educação de elite para a época.Economia: A freguesia não vivia só de café. Havia uma "florescente fábrica de vinho nacional", pertencente ao Padre Joaquim Antonio de Rezende, cuja produção era julgada de "excelente qualidade".
9 Genealogia e Política: Os nomes listados no Almanak de 1884 — Rezende, Vilela, Reis, Gouveia — aparecem repetidamente nas posições de liderança: juízes de paz, eleitores especiais, professores e benfeitores.
9 Outros registros genealógicos10 confirmam como essas famílias (como os Vilela e os Maciel) estavam profundamente entrelaçadas por casamentos, formando a estrutura social, administrativa e econômica da cidade.
A Conquista da Emancipação (1938): O Nascimento do Município
O Caminho para a Independência
Avançando para o século XX, a Freguesia de Carmo da Cachoeira, agora com quase 80 anos de reconhecimento legal, havia crescido. A estrutura de ser apenas um distrito de Varginha já não era suficiente para a comunidade cívica e economicamente ativa que havia se formado.
O ato simbólico final de que a freguesia havia "se tornado adulta" foi, novamente, a construção de uma igreja. Em 1928, o cônego José Dias Machado chegou como vigário e decidiu que a velha matriz (reformada por Severino de Rezende em 1873) já não era adequada. Ele decidiu desmanchá-la para "construir outra mais adequada".
O resultado é a imponente matriz atual. A nova Praça Nossa Senhora do Carmo foi inaugurada em 16 de julho de 1938.
A Data Oficial: 17 de Dezembro de 1938
A declaração simbólica de julho foi rapidamente seguida pela declaração legal. Apenas cinco meses após a inauguração da nova praça, o município de Carmo da Cachoeira foi oficialmente criado.
A data do terceiro e final "nascimento" de Carmo da Cachoeira é 17 de dezembro de 1938, através do Decreto-lei estadual nº 148.
A Consolidação do Poder: Os Primeiros Prefeitos
Em 1º de janeiro de 1939, tomou posse o primeiro prefeito de Carmo da Cachoeira: o Sr. Antônio Rezende Vilela.
O nome do primeiro prefeito é o fechamento de um círculo histórico. Os nomes Rezende (a família do grande construtor cívico Severino Ribeiro de Rezende, de 1884) e Vilela (a outra grande família listada no Almanak de 1884 e nos registros genealógicos
Paralelamente, a educação também refletiu esse amadurecimento. As escolas públicas de 1878 e 1903
Conclusão: A Linha do Tempo Verificada e o Valor da História Documental
A análise dos fatos, confrontando a alegação do ano 1770 com os documentos oficiais e registros históricos, permite traçar uma linha do tempo clara e verificada para Carmo da Cachoeira.
O ano de 1770 não encontra suporte nos documentos oficiais do IBGE
A verdadeira história de Carmo da Cachoeira é a seguinte:
Anos 1840: A Gênese. A área, um "deserto desnudo", começa a ser povoada no "sítio da Cachoeira" pelos Rattes. O povoado se forma com a doação de terras por José Fernandes Avelino e a construção da primeira capela em 1845-1847.
4 1857: A Identidade. O povoado cresce e atinge maturidade (as "100 casas"). É legalmente reconhecido como Freguesia de Varginha pela Lei n. 805, em 03 de julho de 1857.
9 Anos 1880: O Florescimento Cívico. A comunidade, agora estabelecida, demonstra um notável nível de organização. Sob a liderança de cidadãos como Severino Ribeiro de Rezende, a freguesia investe em infraestrutura (água, matriz) e em educação sofisticada (o colégio com preparatório para a universidade).
9 1938: A Independência. Após declarar sua maturidade simbólica com a inauguração da nova matriz, a Freguesia se emancipa de Varginha e se torna um Município autônomo em 17 de dezembro de 1938.
4
A história de Carmo da Cachoeira, baseada em fatos verificados, é mais rica e complexa do que um único ano de fundação. É a história de pioneiros, benfeitores e líderes cívicos que, em uma jornada de um século, transformaram um "deserto" em um município. A verdadeira história, portanto, não deve ser procurada em 1770, mas na dinâmica jornada que começou, de fato, por volta de 1845.


Comentários