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O Desejo do coração não é saciado com coisas terrenas.

A insaciável sede de ter!

Em todo indivíduo que faz uso da razão há naturalmente, por apreciação e intenção, o desejar sempre as coisas de maior valor, sem contentar-se com algo que não tenha alguma coisa que ele prefira. Por exemplo, quem tem uma esposa atraente, vira a cabeça atrás de uma mais bonita, com olhar e propósito atrevido; quem colocou uma veste preciosa procura obter outra de mais valor, e quem possui muitas riquezas inveja aquele que é mais rico. Tu poderias ver pessoas que já têm muitas propriedades e posses juntar mais um campo a outro campo e, além disso, ampliar os limites de sua propriedade com cobiça desmedida. Poderias ver aqueles que habitam casas dignas de um rei e palácios espaçosos juntar uma casa com outra todo dia, e com um desejo irrequieto edificar, demolir, mudar edifícios quadrados em redondos. E os homens enaltecidos às mais altas honras? Não os vemos tentar as coisas mais elevadas, estimulados por uma ambição insaciável, cada dia mais e com todas as forças? E não há fim para todas essas coisas, porque nelas não se encontra nada de particularmente excelso ou ótimo.

Que há de surpreendente que o desejo não possa ficar satisfeito com coisas que são inferiores e piores e que não possa sossegar aquém do que é excelso ou ótimo? Mas é sinal de insensatez e absoluta demência cobiçar sempre aquelas coisas que, uma vez possuídas, nunca satisfazem nem amenizam o desejo, e continuar desejando da mesma forma as que ainda não se possui, anelando com inquietude por aquelas que faltam. Assim acontece que o ânimo vagabundo vá sendo extenuado pelos muitos prazeres enganosos do mundo, correndo de cá para lá com esforço inútil, sem que encontre satisfação: enquanto faminto engole alguma coisa, já a considera insignificante em relação ao que resta ser devorado, e cobiça ansiosamente o que falta, sem estar feliz com as coisas que tem à disposição. Quem, de fato, poderia conseguir tudo? Embora cada um guarde com temor o pouco que obteve com esforço, não tem certeza do momento em que haverá de perdê-lo, mas sabe que, mais cedo ou mais tarde, perdê-lo-á. Seguindo nessa direção, a vontade pervertida tende ao que é ótimo e se apressa ao encontro daquilo que possa saciá-la. Na realidade, nesses redemoinhos a vaidade ilude a si mesma, e a iniquidade mente para si mesma. Se assim queres realizar a tua vontade, ou seja, se queres apreender aquilo que, uma vez apreendido, já não queres mais, que necessidade há de procurar todas as outras coisas? Nesse descaminho corres por vias tortas e morrerás bem antes de chegar ao que merece ser desejado.

São Bernardo de Claraval
(Trecho extraído do livro De DiligendoDeo“Deus há de ser amado”, Editora Vozes, cap. VII, § 18)

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