Pular para o conteúdo principal

A velha igreja do Mosteiro de São Pedro de Rates

O Boletim de Nº 23, de março de 1941, publicado pela Direcção Geral do Edifícios e Monumentos Nacionais - República Portuguesa, Ministério das Obras Públicas e Comunicações apresenta-nos, sob o título A Igreja de S. Pedro de Rates:

A Igreja de São Pedro de Rates, o arquiteto portuense, Rogério dos Santos Azevedo (1898-1983) que, no final dos anos de 1830 e início de 1940,  teve por incumbência a recuperação da velha igreja. O texto introdutório é assinado por Virgínia da Silva Veiga que nos lembra da importância do trabalho realizado por intervenção do Estado Novo.

O programa de rádio, Histórias de Portugal relembra-nos das três primeiras pousadas portuguesas:

  • Pousada de S. Gonçalo, Marão;
  • Pousada Santo Antônio de S. Serém, Agueda; e
  • Pousada de S. Lourenço, Serra da Estrela.

A notícia histórica registrada no Boletim é uma das mais belas. Diz o seguinte:

Debalde sondará o mar de sombras do Passado quem intente descobrir a verdadeira origem da instituição religiosa que a Igreja de S. Pedro de Rates hoje representa. Na realidade, só algumas conjecturas, mais ou menos verossímeis, hauridas nas lendas que a fé medieval, sempre imaginativa, teceu e reteceu ao longo dos séculos, poderão de algum modo contentar a curiosidade dos estudiosos que se abalancem a tal emprêsa.

Segundo a tradição, no local onde se encontra a velha igreja, e em época anterior à dominação romana, existiu ali um povoado de pescadores. Naqueles "remotíssimos tempos” um esteio de água salgada dotava o povoado de um discreto porto marítimo. Algumas embarcações informes semelhantes a jangadas varavam os escondidos areais de Rates. Porque Rates? Acusativo plural do ratis latino, que significa jangada.

Foi aí que se consumou o sacrifício do primeiro mártir que na Europa derramou o seu sangue pela fé cristã. — Boletim, fls. 6

Rates na Comarca do Rio das Mortes

Em Minas Gerais, na Comarca do Rio das Mortes, no Sítio da Cachoeira, em casa de Manoel Antônio Rates, Pe. Bento Ferreira Vila Nova batiza Félix filho de Rita. Padrinhos: Anna da Costa, filha de Manoel Atonio Rates e Manoel da Costa (irmão de Anna) em 12.6.1775.

Outra filha de Manoel Antonio Rates foi a Águida Maria, conforme consta do inventário de seu marido do ano de 1797, Manoel Pereira de Carvalho, cuja inventariante foi sua mulher Àguida (Águeda). O referido inventário trás uma declaração assinada em Cachoeira, 26 de janeiro de 1786, no entanto, não especifica a localização. Fica-nos a dúvida ser a Cachoeira dos Rates ou outra, desde que, da declaração, parte constituinte do inventário, Joaquim José Rodrigues, neto de Manoel Pereira de Carvalho diz:

(...) todos os herdeiros são moradores no Curato do Espírito Santo da Varginha. Termo da Vila de Lavras do Funil, onde existe a fazenda do casal — pode ou não ser a Cachoeira dos Rates. Aguida faleceu em 1816.

Segundo Monsenhor José do Patrocínio Lefort (1950), após pesquisa no registro de batizados da paróquia de Lavras, apresenta uma lista com os primeiros habitantes do povoado das Catandubas, agrupados por anos: 1800, 1801, 1802 e 1803. Foram registrados somente os nomes dos adultos. Eles nos oferecem uma ideia aproximada da população na época. São 46 casais. As crianças e adolescentes não foram incluídos. Na época as mulheres eram incluídas no censo apenas após o casamento.

Em Carmo da Cachoeira Origem e Desenvolvimento, às fls. 12, segunda edição, 1975, o autor Wanderley Ferreira Resende, escreve:

Quanto ao local onde se encontra a cidade, sabemos que tinha o nome de Sítio da Cachoeira e pertencia aos Rattes.

A mesma publicação cita o batizado de Caetana, filha de Cipriana Antônia Rates. A criança teve como padrinho Manoel Pereira de Carvalho, no ano de 1771. Manoel, o padrinho, é natural de São João del Rey, filho natural de João Pereira de Carvalho e de Joana, preta forra, escrava que havia sido de seu pai João. Ele foi casado com Águida Maria (Águeda), irmã natural de Joaquina Maria da Costa, ambas filhas de Manoel Antonio Rates.

Joaquina Maria da Costa, filha legítima de Manuel Antonio Rates e de Maria da Costa Moraes, “Aos desasette dias do mes de novembro anno de mil settecentos e settenta e hum, na Ermida do Reverendo Padre Bento Ferreira, filial desta Matriz de Nossa Senhora da Conceiçan das Carrancas e Santanna das Lavras do Funil, o dito padre Bento Ferreira com licença do Reverendo Párocho Manoel Afonso asistio ao Sacramento do matrimônio que omena na presença e das testemunhas Manuel Machado Meira, José Pereyra Caixeta e Manuel da Costa, celebrarao por palavras do presente Manuel Baptista Carneiro, filho legítimo de Luís Pimenta, e de Maria Baptista Carneiro e Joaquina Maria da Costa, filha legítima de Manuel Antonio Rates, e de Maria da Costa Moraes, ambos os contrahentes naturaes e baptizados na freguesia de Nª Srª do Pilar da Vila de São João d’EL Rey e de presente freguezes desta freguesia das Carrancas, e logo lhes dei as bençãos conforme os Ritos e Cerimonias da Santa Madre Igreja, de que fiz o assento que assignei. O coadjutor Manuel Afonso da Cunha Per.”. (Manuel Afonso da Cunha Pereira)

Porque "Nossa Senhora da Conceição das Carrancas e Santana das Lavras do Funil" constando da certidão de casamento de Joaquina e Manuel Baptista?

A sentença de patrimônio da nova capela das Lavras do Funil da Freguesia de Carrancas, da Comarca do Rio das Mortes, é datada de 21 de abril de 1753, e no ano seguinte, já estava concluída e consagrada sob a invocação de Sat'Ana. A partir de 21 de novembro de 1760, a sede da freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas foi transferida para o arraial das Lavras do Funil, reduzindo Carrancas à sede de paróquia a capela filial da nova Matriz de Lavras.

casa da família de Manoel Antonio Rates e Maria da Costa Moraes


Comentários

Mais lidas no site

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt...

A organização do quilombo.

O quilombo funcionava de maneira organizada, suas leis eram severas e os atos mais sérios eram julgados na Aldeia de Sant’Anna pelos religiosos. O trabalho era repartido com igualdade entre os membros do quilombo, e de acordo com as qualidades de que eram dotados, “... os habitantes eram divididos e subdivididos em classes... assim havia os excursionistas ou exploradores; os negociantes, exportadores e importadores; os caçadores e magarefes; os campeiro s ou criadores; os que cuidavam dos engenhos, o fabrico do açúcar, aguardente, azeite, farinha; e os agricultores ou trabalhadores de roça propriamente ditos...” T odos deviam obediência irrestrita a Ambrósio. O casamento era geral e obrigatório na idade apropriada. A religião era a católica e os quilombolas, “...Todas as manhãs, ao romper o dia, os quilombolas iam rezar, na igreja da frente, a de perto do portão, por que a outra, como sendo a matriz, era destinada ás grandes festas, e ninguém podia sair para o trabalho antes de cump...

A família do Pe. Manoel Francisco Maciel em Minas.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: Sete de Setembro em Carmo da Cachoeira em 1977. Imagem anterior: Uma antiga família de Carmo da Cachoeira.

Mais lidas nos últimos 30 dias

Carmo da Cachoeira: A Fronteira entre SP e Minas

Padre Gilberto Paiva, apresentando a obra "O Clero Paulista no Sul de Minas: 1801-1900", de autoria do Pe. Hiansen Vieira Franco: O Estado de Minas Gerais apresenta certas particularidades históricas no seu processo formativo, que fogem ao padrão de outros estados da federação. Sem contar os movimentos contestatários e independentistas no período colonial e o desenvolvimento da arquitetura barroca no século XVIII, Minas tem algo de diferente. O povo mineiro é o povo que mais emigra no Brasil, só perdendo para o povo nordestino, somados os nove estados que formam esta região do país. Paralelamente ao movimento de saída do estado, os mineiros recebem diversas influências, sobretudo dos estados vizinhos. O Triângulo Mineiro tem suas peculiaridades, que incluem ideias separatistas. Enquanto a Bahia exerce influência sobre o norte do estado, a Zona da Mata e a região de Juiz de Fora são influenciadas pelo Rio de Janeiro . Por fim, o Sul de Minas , que recebe forte influência d...

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt...

A História de Carmo da Cachoeira: O Resgate de Leonor Rizzi

A professora Leonor Rizzi dedicou-se a organizar dados que resgatassem a origem mais remota da ocupação europeia na região que viria a ser Carmo da Cachoeira . Por isso, tomou como marco inicial de suas Tabelas Cronológicas a trajetória do nome Rattes , ligado à primeira família europeia conhecida na área. As Tabelas Cronológicas 1 e 2, aqui unificadas, procuram situar Carmo da Cachoeira dentro de uma linha do tempo ampla, que vai das tradições medievais ligadas a São Pedro de Rates até o ciclo do pau-brasil e da cana-de-açúcar no Brasil . publicado originalmente em 21 de janeiro de 2008 Dos primórdios até o ciclo do pau-brasil Tabelas Cronológicas 1 e 2 unificadas A leitura de longo prazo proposta por Leonor Rizzi começa no campo da tradição cristã. No ano 44 , conta-se que Santiago, apóstolo , teria passado pela serra de Rates e sagrado Pedro de Rates como primeiro bispo de Braga . Essa figura, ligada ao imaginário medieval, é um dos fios que mais tarde aproximariam o topôn...

Monsenhor Nunes - 50 anos de sacerdócio

  Em 9 de fevereiro de 2008, a Paróquia Nossa Senhora do Carmo , em Carmo da Cachoeira , registrou em palavras a gratidão a Monsenhor José Nunes Senador pelos seus cinquenta anos de vida sacerdotal . Poucos anos depois ele partiria, e, com o tempo, sua figura foi ficando mais discreta na memória pública. No entanto, quem conviveu com ele lembra bem do modo familiar com que tratava a todos e da facilidade com que transitava entre as famílias da cidade, conhecendo pessoas, histórias e caminhos. Esse jeito próximo fez dele não só um pastor atento à comunidade, mas também uma ponte importante para o fortalecimento de grupos e comunidades ligadas à paróquia. Ao lado dele, muitas iniciativas pastorais tomaram forma; e, graças às histórias que contava e às pessoas que indicava, boa parte do trabalho de resgate da memória local realizado pela professora Leonor Rizzi pôde avançar em poucos anos o que, em condições normais, exigiria décadas de pesquisas de campo, tanto na área urbana quant...

Leonor Rizzi: O Legado do Projeto Partilha

Um Resgate da Memória de Carmo da Cachoeira A história de um povo é construída não apenas por grandes eventos, mas pelo cotidiano, pela fé e pelo esforço de seus antepassados. Em Carmo da Cachoeira , essa máxima foi levada a sério através de uma iniciativa exemplar de preservação e descoberta: o Projeto Partilha . Liderado pela Profª Leonor Rizzi , o projeto destacou-se pelo rigor acadêmico e pela paixão histórica. O intuito era pesquisar a fundo a origem de Carmo da Cachoeira, indo além do óbvio. A investigação buscou a documentação mais longínqua em fontes primárias, estendendo-se desde arquivos em Portugal até registros no Brasil, mantendo contato constante com pesquisadores de centros históricos como Porto , Mariana , Ouro Preto e São Paulo . A metodologia do projeto foi abrangente. Além da consulta a documentos genealógicos digitais, houve um trabalho minucioso nos Livros de Diversas Paróquias e Dioceses . Neste ponto, a colaboração eclesiástica foi fundamental: o clero da Paróq...

Mais Lidas nos Últimos Dias

Carmo da Cachoeira: A Fronteira entre SP e Minas

Padre Gilberto Paiva, apresentando a obra "O Clero Paulista no Sul de Minas: 1801-1900", de autoria do Pe. Hiansen Vieira Franco: O Estado de Minas Gerais apresenta certas particularidades históricas no seu processo formativo, que fogem ao padrão de outros estados da federação. Sem contar os movimentos contestatários e independentistas no período colonial e o desenvolvimento da arquitetura barroca no século XVIII, Minas tem algo de diferente. O povo mineiro é o povo que mais emigra no Brasil, só perdendo para o povo nordestino, somados os nove estados que formam esta região do país. Paralelamente ao movimento de saída do estado, os mineiros recebem diversas influências, sobretudo dos estados vizinhos. O Triângulo Mineiro tem suas peculiaridades, que incluem ideias separatistas. Enquanto a Bahia exerce influência sobre o norte do estado, a Zona da Mata e a região de Juiz de Fora são influenciadas pelo Rio de Janeiro . Por fim, o Sul de Minas , que recebe forte influência d...

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt...

A História de Carmo da Cachoeira: O Resgate de Leonor Rizzi

A professora Leonor Rizzi dedicou-se a organizar dados que resgatassem a origem mais remota da ocupação europeia na região que viria a ser Carmo da Cachoeira . Por isso, tomou como marco inicial de suas Tabelas Cronológicas a trajetória do nome Rattes , ligado à primeira família europeia conhecida na área. As Tabelas Cronológicas 1 e 2, aqui unificadas, procuram situar Carmo da Cachoeira dentro de uma linha do tempo ampla, que vai das tradições medievais ligadas a São Pedro de Rates até o ciclo do pau-brasil e da cana-de-açúcar no Brasil . publicado originalmente em 21 de janeiro de 2008 Dos primórdios até o ciclo do pau-brasil Tabelas Cronológicas 1 e 2 unificadas A leitura de longo prazo proposta por Leonor Rizzi começa no campo da tradição cristã. No ano 44 , conta-se que Santiago, apóstolo , teria passado pela serra de Rates e sagrado Pedro de Rates como primeiro bispo de Braga . Essa figura, ligada ao imaginário medieval, é um dos fios que mais tarde aproximariam o topôn...